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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

28
Out22

... na costa alumiam o que neblina recobre...

porque a fé ali é eminente


Armindo Mendes

Centenários moinhos de velas brancas são as coroas de terra nobre

Como as prateadas de Espírito Santo, porque a fé ali é eminente

Os faróis hirtos na costa alumiam o que neblina recobre

Alcatra para o almoço, peixe-espada para a janta quente

Inhame e leite, sustento açoriano, que sempre sobra

17
Mar22

Riacho que desconfia do fim

Em breve limbo de açucenas


Armindo Mendes

Rio Jugueiros.jpg

Ao espelho fosco sou letargia

Olhos escuros, húmidos, parados

Brechas despidas de fantasia

Pensares por ora estagnados

 

Expressão frívola, sem luz, sim

No cantinho do costume

Riacho que desconfia do fim

À corrente do queixume

 

Que treme, acerca-se a cachoeira

É pequena, mas receia cair

Esconde-se na trincheira

Leito onde nada, imóvel, para fugir

 

Espelho: “Que pessoa és?

Braços tombados, olhar vazio?

Agarrado ao cabo com os pés?

Retorcido, sem ganas de porfio?

 

… Vai, deixa-te ir na corrente…

É calma, sem Adamastor, vais ver.

Dobrarás talvez pungente

Mas, se ousares, boiarás para viver.

 

Senta-te na folha de outono, navega!

Segue nas águas de vagas serenas

Inspira, vê a natureza sôfrega

Verás em breve limbo de açucenas

 

Olharás o céu desnudar-se, inspira

Invernos idos de lareira arrefecem

Mas abril da utopia desabrochará

julhos dos calores, sim, florescem!

 

Armindo Mendes, 17 março de 2022

 

 

13
Dez21

Alegria é mentira a rebate


Armindo Mendes

Alegria é saboroso?

Alegria é estar em graça!

Alegria é deleitar-se com gozo

Alegria é rir sem graça na praça!

 

Alegria é um pavão colorido

Alegria é um peixe de coral

Alegria e um prado florido

Alegria é canto de pardal

 

Alegria é na lagoa a volúpia!

Alegria é abraço imenso!

Alegria é aquele arrepio

Alegria é gostinho intenso!

 

Alegria é assim!

Alegria é olhar a pessoa desejada.

Alegria é dar a mão, sem fim!

Alegria é gargalhar cada piada!

 

Alegria é caminhar ao lado

Alegria é trocar olhares

Alegria é dar colo sentado

Alegria é restituir mirares

 

Alegria é ofertar flores

Alegria é estar perto

Alegria é sonhar com ardor

Alegria é sofrer, peito aberto

 

Alegria é palrar

Alegria é confiar

Alegria é partilhar

Alegria é não porfiar

 

Alegria é desejar

Alegria é voltar a ter

Alegria é juntos trilhar

Alegria é a dois viver

 

Alegria tem aroma silvestre

Alegria tempera a alma

Alegria é papoila campestre

Alegria é dedilhar a palma

 

Alegria é palhaço triste que ri

Alegria é céu de sol laranja

Alegria é verde Açores, ali

Alegria é afagar a franja

 

Alegria é o filme da vida

Alegria é aquela banda sonora

Alegria é poema de rima sortida

Alegria tristeza não por ora.

 

Alegria é coração que bate

Alegria é lágrima, um fado!

Alegria é mentira a rebate

Alegria é soluço, embargado.

 

Armindo Mendes

15
Nov21

Quase verdade!


Armindo Mendes

Bosque à noite.jpg

Quase noite neste bosque agridoce

Troncos de árvores são formas escuras.

A lua já se ergueu, no seu despertar precoce…

O sol levou do dia curto, as agruras.

 

 

Carvalhos assustadores, nada sublimes…

Formas fantasmagóricas nas folhagens.

Aves noturnas com sonidos, como nos filmes…

De dia tão belo, agora sem fulgência, as imagens!

 

 

Meus passos repisam outono, nas folhas

Aperto o casaco, faz aqui frio!

Olhos escuros, nesta escuridão de escolhas

Quando das copas cai forma de arrepio.

 

Avança-se no trilho sombrio!

Ouve-se a levada, conheço-a, ela vai.

O moinho também, além, que a noite já cobriu

Olhar à volta, medo, a coragem que se esvai.

 

O manto de penumbra cobriu o meu cabelo.

Mãos nos bolsos, busco o foco salvador…

Vais ajudar-me no caminho, quero vê-lo…

A luz corta a noite, mas não certo ardor.

 

No estradão, ao pé da aldeia, volta a luz fria.

De costas ao bosque, é sem glória esta claridade!

Olho o resto de sol que se perde na serra que cobria…

Regresso ao mundo seguro, quase verdade!

 

19
Out21

Para o coração de Amarante, fitá-lo!


Armindo Mendes

Rio Tâmega Amarante04.jpg

Abro os braços meus para abraçar cada bocadinho

Abro o peito meu para sentir cada pedaço

Abro o coração meu para palpitar o carinho

Abro a alma minha para saborear o teu regaço.

 

 

Caminho ali entre carvalhos, becos e guigas

Caminho de mão dada com o rio dos altos poetas

Caminho na passerelle de belas raparigas

Caminho em solos de pintores a óleo e quiçá profetas.

 

 

Abro os olhos meus e vejo o manto da princesa

Abro os olhos meus e vejo os sabores dos conventos

Abro os olhos meus para as preces ao beato, a promessa

Abro os olhos meus tacteio as rosas dos ventos.

 

 

És bela, ò terra de gentes grandes das artes

És belo, ò Marão hirto nos cumes de orgulho imenso

És belo, ò Tâmega quando chegas ou quando partes

Sois belos, Amadeo ou Pascoaes, de esplendor intenso.

 

 

Afago os jardins das resistências heroicas ao franco canhão

Afago as praças das cheias que sangram as nossas memórias

Afago as pontes, açudes e azenhas de tempos que já lá vão

Afago violas com corações e rabecas das amarantinas histórias.

 

 

Subo a São Pedro, subo a São Domingos e a Santa Clara, em encanto

Subo as calçadas dos já partidos e miro a varanda dos reis, de São Gonçalo

Subo à Madalena, São Veríssimo, Santa Luzia e ao Covelo, que olho com espanto

Subo ao Conselheiro ou Solar dos Magalhães para o coração de Amarante, fitá-lo!

 

Armindo Mendes

07
Out21

Fugas!


Armindo Mendes

Fugas foto.jpg

Fugas são caminhos estreitos

Fugas são labirintos sem fim

Fugas são dores nos peitos

Fugas são corações assim.

 

Fugas são memórias

Fugas são palpitações

Fugas são histórias

Fugas são turbilhões.

 

Fugas são rodopios

Fugas são olhos baixos

Fugas são arrepios

Fugas são fogachos.

 

Fugas são olhar atrás

Fugas são cara salgada

Fugas são aquém da paz

Fugas são a triste estrada.

 

Fugas são cair e cair

Fugas são recolhimento

Fugas são ter de partir

Fugas são duro sofrimento.

 

 

Armindo Mendes

30
Set21

À espera das vindimas para vinho se tornarem


Armindo Mendes

Uvas blogue.jpg

Olhar as uvas que pendem das ramadas, como em tempos dos nossos avós

Já são raros esses frutos tintos assim deixando um aroma doce à nossa passagem

São testemunhos de tempos idos, quando os de Roma cavalgaram entre nós

E eles crescem, os cachos, à espera das vindimas para vinho se tornarem e nos darem coragem.

 

O tinto é vontade dos que provam o néctar do Deuses, sob bênção de Baco

Por cá são muitos os bebedores discípulos dessa figura divina

Em sua honra enchem canecas de carrascão e até esquecem o tabaco

E depois riem em embriaguez e cantarolam com ouvidos para a concertina

 

No tasco do Vasco o vinho alegra as almas e chama pelo bacalhau frito

O fiel amigo chega às mesas fumegante com os comensais nos bancos de madeira sentados

Saciam, pois, o desejo e secam o prato com a broa de milho para molhar um bocadito

E pronto, é assim no Minho, ontem como hoje, os homens comem e bebem vinho contentados.

Armindo Mendes

 

 

28
Set21

O moinho aconchega a sorte


Armindo Mendes

velho moinho.jpg

O moinho está sempre ali, no bosque vendo as águas que passam.

Por entre as mós que rodam há tempos imemoriais, escuta as queixas

Esmaga o trigo, sim, e ouve as torrentes de angústias que no peito de outrem falam

E ele é paciente, sabe que deve ouvir os corações que batem nas deixas…

 

Dos queixumes de um confidente do que vai passando sob si

Nas entranhas que escondem a água, à sombra de roda, o escuro convida a testemunhos

E os que seguem sussurram sobre mim, sobre os outros e sobre ti

Das vidas cruzadas, dos desencontros, da vida sonhada feita em gatafunhos

 

O moinho ouvidor por agora veste-se de plantas húmidas que lhe cobrem a pele

São como carapaças com gotículas de sapiência que o fazem mais forte

E assim acredita ser audaz bastante para acomodar quem os outros repele

Esses revelam tudo e esperam um aconchego, que o futuro lhes traga sorte

 

É assim há tanto tempo que até o tempo do trigo já não tem sustento

As heras sobre as paredes do velho casebre são como os livros das mercearias

Registam o passado em cada folha e nele esperam o futuro a contento

Nas almas de remedeio que chegaram são a negação do que para ser feliz farias

Armindo Mendes

 

30
Ago21

Seu amarelo primavera vai partir e enrugado ficar


Armindo Mendes

Flor sol.jpg

O que é a flor-sol que ali vejo tão singela?

Será que ela se abre para beijar os olhos pretos?

Será aquela beleza tão frágil perfume de lapela?

Ou será para o mel moreno de segredos abertos?

 

 

A flor balanceia ao vento das auroras?

Sim, ela sabe que é efémera na luz que candeia.

A flor-sol sente-se estrela por dias e especial por horas.

Bela ela é como uma dama que ao espelho se penteia.

 

 

Sem abelhas, as gotas da chuva, uma e outra, em destino perfeito!

A flor da forma do sol sabe que o seu alvéolo de beleza está no fim.

O seu amarelo-ouro vai partir e enrugado ficar sem jeito.

Cabisbaixa, vai agasalhar-se, como inverno no reino das terras carmesim.

 

 

Armindo Mendes

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