"Laguna de Peces" - Sanabria
Sanabria, Espanha

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]


Como diz a canção de Paulo Gonzo, “…de olhos bem abertos, percorro a paisagem e guardo o que vejo, para sempre, numa clara imagem…”.

Sim, aqui, neste sítio mágico, uma bênção, um espelho de água, ora de um azul profundo, ora quase turquesa cintilante, estende-se por muitos hectares, rodeado pelas montanhas do Parque Nacional Peneda-Gerês, onde nos sentimos pequenos...


Vilarinho das Furnas, no concelho de Terras de Bouro, foi uma aldeia que acabou submersa, em 1971, com a construção da barragem/albufeira que adotou o seu nome…

Hoje, é um dos recantos mais bonitos de Portugal, um sítio mais entre outros pedaços de paraíso que ainda podemos encontrar naquelas vastas serranias do parque nacional, entrecruzadas com a água fresca de rios e ribeiras do Vale do Cávado…

De câmara fotográfica apontada à paisagem, visitar aquele quinhão tão belo é sempre um prazer que se renova a cada regresso pautado pela vontade de inspirar os ares profundos, cristalinos, que bafejam aquelas latitudes, num sossego que nos acaricia a alma, olhando, como diz a canção, “um manto imenso de água… de um azul quase profundo… um sopro de ar”... do lado de cá da serra...


A Serra da Peneda, no Alto Minho, integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês, mesmo junto à fonteira, é uma das mais imponentes de Portugal, alcançando a altitude de 1416 metros.

Os seus maciços graníticos, com milhões de anos de existência, são imponentes, intercalados por bosques, prados e linhas de água que dão um ar bucólico a alguns dos seus recantos, acidentados entre montes e vales.

Ali respira-se ar puro e os sons que se ouvem, quase sempre, são apenas os que resultam da ação da Natureza, como a fauna selvagem, nomeadamente os cavalos que galopam graciosos, ou os riachos, os ribeiros, as cascatas e os ventos… Por vezes, também, os rebanhos!
Vistas voltadas a Melgaço
Castro Laboreiro é uma das suas aldeias altaneiras, que ficou famosa pela raça de cão pastor à qual deu o seu nome – que belo e imponente animal -, mas também pelas ruínas do seu castelo medieval, que vale a pena visitar, após caminhada de 20 minutos, para apreciar o que resta da antiga fortaleza e aproveitar as vistas voltadas a Melgaço, uma bela vila da raia minhota, no sopé da qual passa o rio Minho, ali ainda com certo ar irreverente!

Daqui partem vários trilhos para as serranias do Parque Nacional, para percorrer a pé ou de bicicleta, para deles fruir, ao longo do ano, variando as paisagens, as cores e os cheiros, consoante as estações, entre a natureza e as aldeias das nossas gentes que ainda resistem aos tempos!





Um sítio muito especial, cheio de beleza e tranquilidade, onde se respira ar puro e se pode caminhar, num fim de tarde morno, longe de quase tudo e pertinho do paraíso!

As papoilas são flores maravilhosas e estão entre as minhas preferidas…
Por altura de abril, sorte a nossa, todos os anos é este manjar para os sentidos, aí estão as damas vermelhinhas, com todo o seu esplendor, pintando a paisagem!

Tão belas, tão singelas, tão dóceis, ondulando ao vento, por esses prados de Miranda do Douro, onde caminhamos leves e onde, não longe da Fraga do Puio, à beira Douro, nos sentamos, na companhia delas e das margaridas, também!

Apetece tocar as suas pétalas frágeis, mas não o fazemos, respeitamos a sua delicadeza, apenas olhamos, maravilhados, para a sua textura aveludada e para a sua cor profunda, um tom quente que contrasta com o verde silvestre em redor, numa mescla de pigmentações alegres que só a Primavera nos consegue presentear.


Por aquelas bandas de Miranda, o Douro é esguio, curvilíneo, para rasgar o maciço granítico, empreitada de milhões de anos, esventrando no seu trilho encostas imponentes para onde olhamos com espanto… percebendo a nossa pequeneza…

E a "barca" passa quase encolhida, navegando pachorrenta, contra a corrente da "modernidade", em águas de tons dourados, que dão o nome ao rio…
É reserva natural, parque para cientistas trabalhar e para turistas desfrutar, com respeito, quase em silêncio, por favor, a pedido do guia!

Fauna e flora abundam e são ricas, bem visíveis num passeio de barco com sotaque castelhano, olhando o leito que une dois países, imaginando o plâncton à superfície, vendo as paredes graníticas das margens, quase verticais, com tantas plantas autóctones, quedas de água e ninhos de águias reais!
E, mirando arriba, o céu azul com farrapinhos de nuvens brancas, para, com alguma sorte, admirar as aves de rapina, planando em círculos, com elegância, que abundam por terras de Miranda e ouvir a passarada de abril, quando regressamos a Miranda, com a sua catedral, no topo do penhasco!!!



Que bonita é a serra do Açor, uma das mais encantadoras de Portugal, com as suas montanhas imponentes, até onde os olhos conseguem alcançar, carregadas de trilhos, de bosques mágicos, húmidos, de vegetação autóctone, em cada recanto, que nos convidam a caminhar, parar para respirar, sentindo a natureza.

Obra do divino, também de mãos dadas com a intervenção humana virtuosa por lá, sim, como as casinhas de xisto das aldeias, como o Piódão e outras menos conhecidas nos socalcos, ou nas quedas de água pura, cristalina, embelezadas por espaços de contemplação, que nos retêm ali tanto tempo, em êxtase!!!
Há tanto para ver e sentir naquelas paragens que o tempo é sempre curto para fruir daquele manjar para os sentidos da vida, de tantos paladares ‘gourmet’ que, ao sair de lá, fechando os olhos por instantes para sentirmos mais fundo, vimos impregnados de serenidade, com tanta vontade voltar de voltar e voltar, degustando de novo aquelas marcas tatuadas na nossa alma!
Há trilhos assim, que nos preenchem a alma, como bosques, de tantas fragâncias, de tantas texturas, de tantos retratos encantados, de tantos sabores frutados, talvez a maçã, de tantos riachos cristalinos, de tantos cogumelos, de tantos musgos, de tantas castanhas, de tantas pedrinhas, monte abaixo, monte acima.

Levantamos o rosto, em êxtase, olhamos árvores delgadas, em alameda alinhadas, que, lá do alto, com os seus galhos, quase ocultam a luz, mas, subtilmente, deixam passar um clarão de ouro, sob a forma de faias de outono, enquanto, no caminho, docemente, vamos pisando as folhas numa carpete de cores e sons, com passos que se arrastam sem pressa alguma, só temos vontade de inspirar profundo, ares frescos da Estrela, conter a respiração por instantes, e expirar suavemente, olhando em redor, uma vez mais, para saborear de novo, repetidamente!

A meio da grande subida enlameada, atrás de nós, apesar do chuvisco, apetece parar o tempo, quando olhamos, a poente, a montanha, onde o sol se esconde, por entre as nuvens, a caminho do mar, enquanto ouvimos o Zêzere, jovem rebelde, encosta abaixo…





O compositor e músico japonês, Kitaro, vencedor de um Grammy e um Globo de Ouro, e autor de dezenas de discos editados ao longo de mais de 50 anos de carreira, foi convidado, em fevereiro, pelo músico vietnamita HaAnhTuan para participar num concerto, no Vietname, que assinala um movimento que se bate pela natureza naquele país asiático conhecido pelas suas florestas tropicais.
Nesse concerto memorável, acompanhado de uma orquestra clássica, HaAnhTuan dá voz a duas das mais conhecidas composições de Kitaro, num exercício vocal espetacular e arranjos musicais belíssimos, que deverão em breve ser editados em disco.
O compositor japonês associou-se, assim, àquele movimento ambientalista, algo natural em Kitaro, ou não se tratasse de um apaixonado pela natureza, a principal inspiração para a sua carreira como músico à escala planetária.
Neste documentário, com a simplicidade que lhe é característica, Kitaro fala da importância de as atuais gerações se empenharem na preservação da natureza, em todas as latitudes, pensando no futuro, os nossos filhos, nos nossos netos, apontando como exemplo a plantação de árvores a que se propõe aquele movimento vietnamita.
No concerto, Kitaro afirmou:
“Há três dias, estivemos [com HaAnhTuan] a plantar árvores juntos [na floresta].
Isso não é para as nossas gerações, é para a próxima e próxima e próxima gerações…
As árvores crescem bocado a bocado, bocado a bocado, mas, com certeza, vão crescendo!
Nós somos como as árvores, não precisamos de crescer tão depressa. Nós podemos crescer passo a passo”.
A música de Kitaro é uma ode de sentimentos, de emoções, de sonhos, em que a natureza e o amor são a razão de ser da sua inspiração, apaixonando várias gerações de seres humanos, à volta do globo, unidos pela tranquilidade universal da sua mensagem, sob a forma de notas musicais doces que tocam fundo da nossa alma!!!
Neste vídeo ele fala do seu processo criativo.
“Eu crio música e gosto tanto de o fazer, porque o faço na natureza. Calados, conseguimos ouvir muitos sons, os pássaros a cantar, os ventos a soprar… A música deu-me muita inspiração… Talvez eu não seja o criador da minha música. A natureza deu-me a música e ela passou através do meu corpo. É isso a minha música”, afirmou.








Graciosa, ínsua branca, conheci-te, finalmente!
Das nove atlântidas furtivas, a última na minha admiração
Tua quentura suave, sem pressa, tempera ao sol poente…
Teu mar, teu sal, salpicam paisagens, como notas de bela canção!

Que sublime desenho, no voo de garajau, nesse salgado mar
Como as tuas manas, ergueste-te com graça maior
Moinhos, impérios, ermidas, casinhas de encantar
Igrejas de séculos, muros de basalto, vinhedos ao calor!

Serras, a branca e as fontes, a caldeira, a vegetação faustosa!
Laurissilva abundante, naquele quinhão, que ar tão verde, tão doce!
A passarada das ilhas exalta os sentidos, na alma que goza!
Olho na cumeada o chuvisco que molha a pele, à bruma, como borboleta fosse!

Impressionam as entranhas, em abóbada, da furna do enxofre, os vulcões, dos Açores, o fado!
Picos suaves mostram aos forasteiros andantes vistas que coram a memória
Atlântico sem fim, ravinas, nuvens de tantas nuances, prados, gados…
Silêncios na Ponta da Barca, formas basálticas de baleia, farol da Barca, tanta história!

Eternamente… Moinhos de vento à bolina, para os cereais
No pretérito, esses engenhos moíam os gãos para pão.
Hoje, parados, posam, com graça, para a foto, belos, sem iguais.
Como os lagares onde já não se pisam uvas, ou velhas pipas, em solidão.

Santa Cruz, tua brasonada capital, abrigo nos descobrimentos!
Casario branco rebordado a negro, coreto descoberto, pracetas, árvores centenárias…
Acolá, na Calheta, rampas da caça à baleia, botes, arpões, memórias de passado sangrento.
Ali, teus tanques, outrora para gado, na calçada desenhos e belas luminárias!

E na Ribeirinha, burros são animais obreiros e dóceis, da “ilha dos burros”, carinhosamente, os seus
Como as centenárias touradas à corda, espetáculo aos meus olhos sem graça, mas marca das gentes…
Doces as Queijadas da Praia, frescos os peixes da Luz, das traineiras de S. Mateus…
Como o alho da ilha, suave no pão, ou as termas do Carapacho, para os ilhéus doentes!

Graciosa, a derradeira das esmeraldas encantadas, no livro meu de visitas aos Açores!
As ilhas da bruma, das areias negras, das lagoas de namorados, das fajãs, dos vulcões, das furnas, da Laurissilva, das tradições, dos mares…
Caminheiro ali, incapaz sou de escolher a mais bela, porque por todas sinto tantos amores!
A cada ida, alegria de chegar, a cada partida, o vazio de deixar e a vontade de ficar!
julho de 2022
Degustado, sem pressas, o arroz de favas, passeado o jardim palaciano de japoneiras e laranjeiras, a velha estrada 108 apresentou-se, como outrora, com curvas e contracurvas, sob um brilho de Primavera, imitando os caprichos do Douro verde, de Tormes, ao fundo, num sobe e desce, nos seios das serranias, para um intento a cada ano, que se engalana de branco, do mais branco que há, em cachos de delicadeza sem fim, quase sem cheiro, mas que fazem pasmar, em deleite, os espelhos do espírito.
A caminho de Porto de Rei, aquele sítio mágico, entre o rio e as serranias dos mosteiros românicos, que em socalcos curvilíneos sobem quase até ao céu azul, pintadas, por ora, de tons alvos, num espetáculo da natureza humanizada, tão desafiador que os olhos desabrocham em lágrimas de coração.
A descida para o rio faz-se vagarosamente, parando tantas vezes quantas o nosso espanto ordenar, para mais uma fotografia, para mais uma vénia, para mais um carinho à flor.
Na nossa mão, refletindo na menina dos olhos, cada pedaço de bagos brancos, de petalazinhas enroladas entre si, pitéu de abelhas, num ciclo mágico que embriaga a existência, a vida.
Tão veemente olhar em volta, acima e abaixo e por todo o lado, inspirar num misto de sofreguidão e prazer, aquele quase mar de cerejeiras em flor, em fervor, levemente ondulantes pela brisa. Impotente sou, não consigo parar o tempo, naquele momento em tons de sétima arte.
Lá, o Douro, para onde olhamos sempre e sempre, com pasmo, um rio imenso na sua alma das gentes do Norte, uma artéria maior por onde, desde tempos imemoriais, corre o nosso coração, o nosso sotaque, o nosso inconformismo, como povo, porque nestas terras do condado onde nasceu Portugal.
Em Porto de Rei é sempre assim, em abril, prados de flores silvestres e famílias que fazem os seus churrascos, desfrutando dos primeiros dias amenos, salivando por mais umas semanas, quando o branco que cobre a paisagem der lugar ao vermelho da rainha dos frutos, as belas cerejas de Resende!
Serão milhões de pontos cintilantes, da cor da alma, a corar a paisagem da Cidade e as Serras, para gaudio dos gulosos do fruto carnudo, eu confrade me confesso, tanto como as conversas.
Hão de ser muitas cestas a caminho das feiras da região, muitas improvisadas em bancas na beira da estrada, para os cavalheiros após jornada de trabalho levarem para casa, em belos cestinhos, com fitinhas de cetim, num belo presente à família, quiçá com rebuçados da Régua para os mais traquinas.
Na outra margem, o comboio que para Oeste leva outros como eu, do mundo maravilhoso destas flores tão belas, como manto de noiva, obra-prima do Criador, para nós!
No regresso às curvas e contracurvas da marginal, paragem, que a tradição ordena, para momento pecaminoso no centro da vila, sucumbindo à tentação das cavacas de Resende, sob a forma de milhões de calorias, para luxúria dos palatos gulosos dos mortais.
No centro de pequena urbe, quase sem gente, percebe-se o pôr sol, por entre os pilares do coreto triste, sem música há muito, e o arrepio que nos impele a apertar o casaco, que o verão ainda vem longe.
Na descida, até à ponte da Ermida, devagarinho no carro, tempo para pasmar com o espelho de água que se refastela, pachorrento, a caminho da foz, na Invicta, onde o sol se vai deitar daqui a pouco e a Lua acordar para pratear o rio com raios subtis e sobre os rabelos à beira da Ribeira, numa tela a preto e branco, como vultos de cálices de Vinho do Porto.

Amendoeiras em flor, em Vila Nova da Foz Coa - FOTO: Armindo Mendes

Amendoeiras em flor, em Vila Nova da Foz Coa - FOTO: Armindo Mendes

Que surpreendente e belo cantinho para contemplarmos cada nuance da natureza que o Homem quer preservar!
Que belo casamento entre a mãe-Natureza o pai-Homem, unidos num só, belo quadro que se espraia no espelho de água do Tâmega refletindo o céu borrifado de ouro e as mimosas, de pequenos botões, que apetecer tatear, cheirar, levar para casa e guardar, em segredo, num porta-joias aveludado, de azul-marinho, que reabriremos para vermos os tons perfumados da flor-de-lis com sotaque a Versailles deixado pelas invasões.
Amarante proporciona estes antros para nos arrepiar a alma, olharmos o horizonte e vermos os traços no éter quase boreal.
Caminhar ali é tão especial quanto o ar fresco que nos esfria o semblante, mas que nos impele para irmos além daquela curva e perceber o que se oculta lá.
FOTO: Armindo Mendes

