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Marca d'Água

Marca d'Água

27
Mar24

À noite, num dia de chuva zangada lá fora

Convite para partir em direção ao monte Fuji, bem alto, no pensamento


Ouvir Kitaro é um privilégio, uma dádiva que agradeço àquele mestre!

Num exercício de egoismo, diria que algumas das suas composições parece terem sido feitas para cada um de nós, porque nas artérias parecem fluir, sem pressas, até ao coração!

Encantam, porque são doces, suaves, exalam ternura, paz e tranquilidade... E são tantas assim... corpos acima, os nossos!

À noite, numa jornada de chuva zangada lá fora, saborear estes acordes, aqui dentro, é uma delícia, a cada regresso ao mundo de sonoridades de Kitaro, ao ritmo oriental, do sol nascente!

Ouvi-las, em paz, são convites renovados para abrir as asas do sonho e partir em direção ao monte Fuji, voar bem alto, no pensamento, numa odisseia de memórias de prados frescos, de devaneios em cascata, de quimeras em flor de cerejeira e travo de mel!

No fundo, de pensamentos, interpelações, sobre o que somos, que fazemos, os nossos silêncios, de onde vimos, para onde vamos, nos dias finitos, aproveitando cada instante, numa torrente de arrepios, à nossa maneira, no cantinho, à luz, ao calor do serão!!!!

 

Boa noite!

18
Mar24

Em serões que nunca acabam...

À meia-luz da noite… ouvindo Yanni


Yiannidisco.jpg

Há décadas que sigo a carreira de Yanni, o músico e compositor grego, atualmente com 69 anos, que encanta milhões à volta do mundo, com as suas melodias "New Age", ao piano, que nos enchem o coração, que adoro há tanto tempo… em serões que nunca acabam, à meia-luz da noite… quase sempre… enrodilhado nos CD`s e DVD´s da minha coleção… Ouvir as suas composições e orquestrações é um prazer renovado, a cada regresso àquele disco (também tenho em DVD) especialíssimo, de 1993, “Live at the Acropolis”, com o qual, ainda na minha juventude, descobri verdadeiramente a maestria de Yanni… num concerto num sítio incrível...

Ali, este tema maravilhoso, “One Man's Dream", conquistou-me!!! Ainda hoje é um dos instrumentais mais belos que alguma vez ouvi, que ouço vezes seguidas, sem me cansar, pela sua simplicidade e beleza, contando uma história, aquela que nós quisermos… na nossa memória, na nossa saudade!

No meu caso, é uma música que cheira a rosas, reluz como o sorriso da minha mãe, que eu trago dentro de mim, ou com aquele olhar tom de mel, materno, de amor infinito, que me abraçava!!!

Sim, eu sei, é uma música que me faz sofrer, às vezes, chorar, quase sempre!!! Por ser tão bela!!!

 

 

Mas, “Live at the Acropolis” é apenas um notável exemplo dos muitos trabalhos em estúdio ou ao vivo que o músico tem proporcionado aos seus seguidores.

Outro concerto maravilhoso foi o que o músico grego deu, mais recentemente, em AlUla, na Arábia Saudita, intitulado “Until The Last Moment", justamente o nome desta composição que partilho aqui, por ser um dos que melhor traduz a obra de Yanni, que adoro até ao último bocadinho!

Boa noite!

 

24
Dez23

Noite maior

Kitaro - Silent Night


Nesta noite tão especial, de amor e partilha, proponho aos que me seguem neste cantinho, uma música de Natal, de encantar, tão doce, tão bela, aqui interpretada com a magia e a sensibilidade única de Kitaro, para sonharmos, noite fora!

Espero que gostem!

Eu adoro!!!

25
Nov23

Músicas assim

Textos falados de jovem sonhador. “À Luz da Noite”


Biscaya, nesta versão tão doce de James Last, é um daqueles temas intemporais, que ouço vezes e vezes, sem vontade de parar… à noite, por estes dias, acalentado pela saudade do outono da vida.

São extraordinárias as sensações ao ouvir este instrumental dos anos 80 do século passado, que tocam fundo, demasiado fundo! Não tem palavras, mas diz tanto!

Foi genérico de programa de rádio, são recordações de tempos que já lá vão, sob a forma de calafrios, pele morena, cabelos negros compridos, nostalgias agridoces, a preto e branco, Coca Cola na Arcada, gelados Calipo no Toural, na minha Guimarães, de pontos determinados da adolescência/juventude, num processo de amadurecimento, aquele, repentinamente acossado por certos acontecimentos… alguém partira e eu ficara, ali, à porta!

As nuvens negras fugiram há muito, a porta fechou-se, mas hoje esta doce canção, sem culpa alguma, ainda faz estremecer quando por ela se passa, olhando para ela com a ternura de um abraço que ficou por dar na hora da despedida!

Ao ouvi-la, de peito inflamado, fica-se mais quebradiço, ao deixar cair umas quantas lágrimas, recordando tantas coisas, tantas ansiedades… abrindo um programa de rádio, com músicas de vinil e sonhos falados de um jovem “À Luz da Noite”, nos idos 90’s!

22
Nov23

Músicas especiais, assim

"Don't Leave Me Now" - Aquela lágrima que brota do canto do olho


"Don't Leave Me Now", do álbum “Famous Last Words”, de 1982, dos Supertramp, é uma daquelas canções tão especiais que, há muito tempo, constam da minha tão exclusiva ‘playlist’ intitulada “Canções da Minha Vida”, no ‘Spotify’, que ouço quase diariamente, tantas vezes com o ‘repeat’ ativado… porque não me canso de a ouvir!

Faço-o para me deleitar as vezes que me aprouver, nas longas caminhadas ao entardecer, treinando no ginásio, escrevendo poesia ou, simplesmente, desfrutando em todo o seu esplendor acústico e melódico, no meu sistema de som, até às entranhas… como gosto de dizer.

 

 

Ouvi-la, de olhos fechados, é intenso, de punhos serrados é indescritível, provoca arrepios, é uma espécie de caminho para o clímax, um convite para sonharmos, batermos as asas que não temos e, sem saberemos, como por magia, levantarmos voo… até ao infinito, num céu azul sem fim, à procura do Sol…

Senti-la - esta melodia - no peito, é arrebatador, quase sempre o gatilho para aquela lágrima que brota do canto do olho… agridoce, que percorre o rosto até a saborearemos na boca, ao percorrermos as recordações, sob a forma de desencontros, equívocos e histórias que ficaram por acabar… de partidas precoces das pessoas que amamos… que recordamos e, sem conseguirmos, almejamos tê-las a nosso lado…

A música é assim, fala connosco e murmuramos com ela, sem saber, sobre tudo e sobre nada, a cada bafo, com ouvidos que veem.

 

Palpitação para o tempo que acabou de começar

 

Ninguém tem de saber, mas a melodia é uma guitarra, uma palpitação para o tempo que acabou de começar, em caminhos ao nevoeiro, sopros de dúvidas, pianos de angústias, harpas de medos, violinos de perguntas… sobre o lado de fora do postigo, de onde, em contrabaixo, se olha a noite para olvidar além ou quiçá convocar.

04
Mai23

“Acoustica” – um DVD inolvidável porque marcante

Em “pele de galinha”, ouvindo "Send Me an Angel"… em 5.1


Acoustica Scorpions.jpg

“Acoustica” foi o título atribuído ao CD/DVD editado em maio de 2001, dos três concertos que os germânicos “Scorpions” deram no Convento de Beato, em Lisboa, de 8 a 10 de fevereiro daquele ano, também especial por ter sido o do nascimento do meu "filhote".

Na versão em DVD, podemos ver e ouvir 19 clássicos da banca (quase duas horas), em formato acústico, muito bem trabalhado, numa justa homenagem que os “Scorpions” quiseram dar ao público português, por ser tão apreciador do grupo alemão.

Como com os livros e os filmes, há discos que nos marcam de sobremaneira, não só pelo seu conteúdo, que neste caso é excelente em termo musicais e no que toca à qualidade do som, mas também por determinadas circunstâncias, nomeadamente o facto de ter sido “Acoustica” o primeiro DVD que adquiri para ouvir no meu então novíssimo sistema de som, em Dolby Digital 5.1, da Sony.

 

Foram fantásticas sensações audiófilas aquelas, numa tarde de sábado, chuvosa, mas cálida, desfrutando, até quando me apeteceu, de um som envolvente, de agudos cristalinos e baixos quentes, aqueles que tocam o peito do ouvinte, até à alma, em formato acústico, para gáudio dos sentidos e das emoções, em “pele de galinha” ouvindo "Send Me an Angel", com o timbre soberbo de Klaus Meine e as guitarras acústicas dos seus comparsas.

Ficaram as recordações desses momentos inolvidáveis!!!

 

 

08
Abr23

“John Lennons Guitar” um dos hinos dos Barclay James Harvest

Solo de guitarra espetacular, cheio de alma e mestria


John Lennons Guitar foto.jpg

“John Lennons Guitar” é um dos temas que eu mais gosto dos eternos Barclay James Hervest, a banda da minha vida.

Trata-se de uma canção original do álbum “Welcome to the Show”, de 1990, o antepenúltimo disco de originais dos BJH, escrita por John Lees, um dos elementos da banda britânica, que também dá voz ao tema.

No vídeo, é incrível e emocionante ver a guitarra de John Lennon, o instrumento “mágico” que tocava um dos mais carismáticos dos Beatles. Como se ouve na música, os Beatles eram os heróis de John Lees, que, nesta bela canção, recorda o dia em que, no início dos anos 70, tocou a guitarra da estrela de Liverpool.

Esta versão ao vivo, de meados da década de 90, às tantas ainda mais bem conseguida do que a original, nela vemos e ouvimos o grande John Lees, num solo de guitarra espetacular, cheio de alma e mestria, um dos mais emocionantes, porventura, da sua carreira.

É sempre uma emoção rever e ouvir esta incrível canção, de um álbum lindíssimo, que inclui outras composições memoráveis, como as baladas “Where do we go”, “Halfway to Freedom” e “If love is King”, entre outras, além do tema que dá o nome ao álbum - “Welcome to the Show”, uma canção “pop”, cheia de ritmo, muito bem produzida, demonstrando que os BJH não eram só uma banda de grandes baladas.

Disco BJH copiar.jpg

Desse disco memorável, que tem uma das capas mais bem conhecidas do grupo, onde não falta a borboleta (símbolo do grupo), tenho as versões em vinil e CD, que guardo religiosamente na minha coleção, que vou repescando, ao ouvido, quando dá vontade.

30
Mar23

Kitaro associou-se a movimento ambientalista no Vietnam (VÍDEO)

Compositor japonês foi convidado num concerto do músico vietnamita HaAnhTuan


Kitaro vídeo.jpg

O compositor e músico japonês, Kitaro, vencedor de um Grammy e um Globo de Ouro, e autor de dezenas de discos editados ao longo de mais de 50 anos de carreira, foi convidado, em fevereiro, pelo músico vietnamita HaAnhTuan para participar num concerto, no Vietname, que assinala um movimento que se bate pela natureza naquele país asiático conhecido pelas suas florestas tropicais.

Nesse concerto memorável, acompanhado de uma orquestra clássica, HaAnhTuan dá voz a duas das mais conhecidas composições de Kitaro, num exercício vocal espetacular e arranjos musicais belíssimos, que deverão em breve ser editados em disco.

O compositor japonês associou-se, assim, àquele movimento ambientalista, algo natural em Kitaro, ou não se tratasse de um apaixonado pela natureza, a principal inspiração para a sua carreira como músico à escala planetária.

Neste documentário, com a simplicidade que lhe é característica, Kitaro fala da importância de as atuais gerações se empenharem na preservação da natureza, em todas as latitudes, pensando no futuro, os nossos filhos, nos nossos netos, apontando como exemplo a plantação de árvores a que se propõe aquele movimento vietnamita.

No concerto, Kitaro afirmou:

“Há três dias, estivemos [com HaAnhTuan] a plantar árvores juntos [na floresta].

Isso não é para as nossas gerações, é para a próxima e próxima e próxima gerações…

As árvores crescem bocado a bocado, bocado a bocado, mas, com certeza, vão crescendo!

Nós somos como as árvores, não precisamos de crescer tão depressa. Nós podemos crescer passo a passo”.

 

A música de Kitaro é uma ode de sentimentos, de emoções, de sonhos, em que a natureza e o amor são a razão de ser da sua inspiração, apaixonando várias gerações de seres humanos, à volta do globo, unidos pela tranquilidade universal da sua mensagem, sob a forma de notas musicais doces que tocam fundo da nossa alma!!!

Neste vídeo ele fala do seu processo criativo.

“Eu crio música e gosto tanto de o fazer, porque o faço na natureza. Calados, conseguimos ouvir muitos sons, os pássaros a cantar, os ventos a soprar… A música deu-me muita inspiração… Talvez eu não seja o criador da minha música. A natureza deu-me a música e ela passou através do meu corpo. É isso a minha música”, afirmou.

15
Mar23

Música com sentimento lusitano...

“Haja o que houver” - Madredeus


haja o que houver foto.jpg

“Haja o que houver”, dos Madredeus, é um tema muito especial, de 1997, que reflete o período áureo daquele grupo, então com a voz lindíssima de Teresa Salgueiro, capaz de nos arrepiar!

A composição musical é simples, como sempre nos Madredeus daquela fase, mas envolvente, destacando-se as cordas.

A letra é cheia da saudade lusitana, aquela que só nós, neste cantinho da Europa, do Minho ao Algarve, dos Açores à Madeira, somos capazes de sentir, quando gostamos de alguém.

Para ouvir muitas vezes!

 

 

08
Fev23

BJH - The butterfly band


Que belas músicas e letras compuseram e interpretaram os Barclay James Harvest (BJH) ao longo da sua longa carreira, uma banda que sempre usou o singelo inseto borboleta como seu símbolo, traduzindo a sensibilidade que os seus membros sempre manifestaram com temas que encheram a alma de tantos apreciadores.

Nas capas dos seus discos o nos cenários dos seus concertos não podia faltar a borboleta!

Ouvi-los, nas suas diferentes fases e abordagens estilísticas, proporciona-me um prazer imenso e sempre renovado há tanto tempo, que já nem me lembro!!!

Letras profundas e melodias deliciosas, sobretudo nas suas baladas, são o denominador comum de 30 anos de canções que guardo em dezenas de CDs, DVDs e vinis, uma coleção iniciada na minha adolescência e tão especial quanto a admiração que tenho pela obra da banda.

Borboleta foto.jpg

FOTO: Armindo Mendes

“Child Of The Universe” é uma das composições mais conhecidas dos BJH e uma das mais apreciadas nas suas atuações ao vivo, como esta em Berlim no início da década de 80, "A Concert For The People", um dos período áureos da banda.

 

 

 

20
Jan23

Grandes músicas, eternas


“Once Upon a Time in the West” é uma das grandes músicas da banda sonora do ‘Western’ com o mesmo nome, realizado em 1968, por Sergio Leone, com banda sonora do inesquecível Ennio Morricone.

Esta composição musical, que tem muitas versões, é uma das mais belas melodias alguma vez criadas por um ser humano, na minha humilde opinião.

Esta versão, interpretada por Benedetta Caretta, está entre as mais bem conseguidas, para ouvir muitas vezes e deixarmo-nos ir até onde a alma de um mortal quiser, quem sabe: Era uma vez no Oeste.

30
Dez22

Kitaro, no tapete voador

Começou aí uma paixão para a vida


Capa de disco de Kitaro copiar.jpg

Nos últimos anos da década das cores garridas, os 80's do século passado, quando ‘teenager’ ainda, ensaiava as lides da rádio e idealizava ser “jornalista”, descobri algo que me tocou e que, ainda hoje, de certa forma, faz parte da minha pessoa: a música de Kitaro…

De passagem, apressado, da redação para o estúdio 1, para ler o noticiário do meio-dia, ouvi algo que me despertou: um som especial, doce, sereno, que saía do estúdio 2, então de porta entreaberta. Quedei-me, por segundos, deliciado, para depois seguir para a leitura das notícias do dia, “armado” em jornalista.

Minutos depois, de regresso, entrei no estúdio 2, onde ainda se ouvia aquela sonoridade. Um colega, de cabelos grisalhos, tocava um disco de vinil, enquanto, concentrado nos potenciómetros de uma mesa de mistura, gravava uma cassete num deck Technics.

Perguntei-lhe que música mágica era aquela. Logo retorquiu, questionando-me se eu gostava. Sorri e, prontamente, disse-lhe que não gostava nada, que adorava, tanto!

O Nelinho, assim se chamava o senhor, disse-me então, de peito feito e voz grave, que se tratava de Kitaro, um tal japonês que compunha música instrumental eletrónica.

Ali fiquei, em silêncio, mais uns minutos, deliciado, a ouvir uns excertos e admirando a capa do disco com carateres orientais.

Pedi-lhe, depois, com certo receio, que me emprestasse a cassete que acabara de gravar no estúdio a partir de um disco de vinil chamado “Silver Coud”, de 1984, para que eu pudesse levar para casa, na hora de almoço, e copiá-la para mim, o que acedeu, para minha surpresa.

Assim fiz.

Em casa, preparei uma cópia no meu Hi-Fi, escolhendo uma cassete TDK de crómio, de ótima qualidade, que, entretanto, comprara numa loja.

Ao final da tarde, regressado a casa, sentei-me no sofá da sala. Ansioso, liguei a aparelhagem, acionando o “play” da cassete que gravara na hora de almoço com a música “especial” do tal nipónico.

Com um volume generoso, devorei as músicas, deliciado com aquela sonoridade tão fresca, que mesclava, de maneira inédita, sintetizadores, instrumentos clássicos e até alguns sons da natureza, como o vento e o mar, em melodias suaves que me enchiam a alma até às entranhas. Eu não sabia, mas vivenciava, então, alguns dos momentos mais doces da minha existência, sob a forma de arrepios.

E, lá fora, a chuva batia na vidraça da janela, naquele dia cinzentão, para meu encantamento, olhando a automotora passar...

O terceiro tema daquele incrível álbum, intitulado “Dreams Like”, foi o que mais me apaixonou. Que beleza, que subtileza, que envolvência! Um festival para os meus sentidos exacerbados pela adolescência, uma viagem no éter, flutuando por entre nuvens e estrelas, como se via na capa do disco, em cartão, cheirando a novo, sonhando ser feliz um dia, numa estranha utopia, premonição aquela de um poeta sem jeito!

A noite chegara corrediça e, como fazia muitas vezes, deitado na alcatifa da sala, apagava as luzes e, envolvo numa manta fofinha e umas quantas almofadas, colocava os auscultadores, ouvindo a cassete vezes sem conta, soçobrado, olhando as luzes do Hi-Fi subindo e descendo, sem pressa, ao ritmo da harmonia, como o carrossel mágico do Franjinhas.

A minha mãe abria a porta da sala para ver se eu estava bem. Eu sorria, levantava a mão e ela sabia que eu estava no meu mundo, sozinho, como quase sempre, ouvindo aquelas músicas esquisitas.

Que prazer aquele, que hoje recordo aqui, ouvindo o vinil desta historieta, que fui buscar ao baú, enquanto escrevo estas letras sem graça, só para mim, à beira de mim, porque, egoísta, me apetece!

E foi esse vinil que procurei dias depois numa discoteca (loja que vendia discos) em Guimarães, onde eu costumava comprar os meus tesourrinhos. Peguei na cassete e, na loja, pedi ao senhor que a pusesse a tocar.

Quando ouviu, olhou-me e, orgulhoso, disse que conhecia, que era Kitaro, um "músico tipo Vangelis", disse, logo me levando a uma prateleira, onde lá estava o famoso disco, este que agora gira no meu cantinho, como há 34 anos!!! 

Fiquei extasiado. Comprei o LP (capa deste post) e logo perguntei se tinha mais algum disco de Kitaro.

Disse que não, mas que podia mandar vir, importados do estrangeiro, os que eu escolhesse num catálogo da “Polidor”, que me mostrou, para meu deleite.

Começou aí uma paixão para a vida, a minha, sim!

Desde então, comecei a minha coleção. Primeiro em LP, mais tarde em CD e também em DVD, o primeiro dos quais trazido de Macau, por um amigo radialista.

Hoje tenho dezenas, que guardo, com carinho, apesar de agora ouvir quase sempre em formato digital, no Spotify ligado ao meu sistema de áudio. Mas quando o faço em vinil é algo mágico, que só um tipo desinteressante e 'démodé', como eu, sabe degustar.

Na minha coleção, são muitas viagens pelas diferentes abordagens musicais de Kitaro, ao longo da sua longa carreira, com influências de várias culturas, orientais e ocidentais.

Mas são os seus primeiros discos os que mais gosto, apesar de ainda hoje compor melodias maravilhosas.

O álbum “Dream”, de 1992, é, para mim, o disco mais completo, de um Kitaro já maduro, dono de uma capacidade sobre-humana. A música “Lady of Dreams”, vocalmente interpretada por Jon Anderson, que também cantou para Vangelis, é um hino ao amor e à vida, uma obra de arte eterna, entre outras lindíssimas desta ode.

Muitos anos depois do primeiro contacto com Kitaro, já no final da década de 90, assisti a um concerto dele, em Leon, Espanha, intitulado “An enchanted evening”, naquela que foi, quiçá, uma das noites mais encantadas e intensas da minha vida! Que concerto espantoso num teatro muito bonito!

Por agora, já cinquentão, vou revisitando regularmente a obra daquele extraordinário compositor, que hoje tem milhões de fans em todo o mundo, apesar de nunca ter sido um artista de massas!

Só um “a-propósito”: Gosto de ouvir Kitaro de pijama e robe, no meu espaço predileto, como agora, onde tenho o meu equipamento de som e a carpete sempre prontos para momentos a solo, na melhor companhia – aquela para onde a imaginação iluminar o  espírito, no tapete voador, das mil e uma noites.

Armindo Mendes - 30-12-2022

 

 

 

31
Out22

Até onde a chama houver...

... numa ode ao deleite dos sentidos...


... dos dedos agitados do guitarrista, da subtileza que afaga a harpa, da voz do tenor que se ergue para lá do comum-mortal, do requinte do xilofone ou do sopro de prata do trompetista transpiram ecos, como os gemidos do violino e os graves da bateria que calam o silêncio da superficialidade, como a pena do escritor que rabisca à luz da vela com palavras de narrativas uma folha branca, para a transformar num soneto de belas rimas ou numa ode ao deleite dos sentidos, da contemplação, da imaginação de contextos, de amores arrebatadores, que até as telas de cinema obsequiam em grandes produções que só a sétima das artes ousa fazer, num clímax de emoções, até onde a chama houver...

07
Ago22

Eu, menino, registei!

Abrandei, acabando por me quedar, sentado no empedrado junto à porta, abrigado da canícula, ouvindo


Cravo de abril.jpg

Saí de casa, calção azul marinho vestido, sandálias nos pés, num outono, quente ainda.

Camisa meia-manga, amarelo torrado, de colarinhos abastados, banhinho dado, perfumado, penteadinho pela mamã, sacola da escola às costas, com livros e cadernos a cheirar a novos e lápis bem afiados. Ainda lembro aquele cheiro.

Sorriso nos dentes, um friozinho na barriga, menino petiz eu era, de partida para nova odisseia!

Era o primeiro dia da escola, onde iria finalmente apender a ler letras, o que tanto desejava.

Já não teria de pedir à mãe ou ao pai para me dizerem o que estava escrito nos letreiros das lojas.

Eu sabia que era um dia importante, porque disso falara antes com o meu pai, que, ao levantar da cama, lavando os dentes comigo, me encorajou com a sua voz serena para mim.

“Vai correr bem, Mindocas!”, disse, afagando-me o cabelo preto.

Já rua acima, caminhava feliz no empedrado da rua da Moura, onde habitualmente jogava à bola e outras brincadeiras, a caminho da escola da Ressa, olhando, ouvindo as folhas que pisava, cheirando, sentindo tudo à minha volta, sem saber, prelúdio de comportamento para uma vida vindoura.

Lembro o casario da aldeia, de paredes de granito, os carros que passavam, as motorizadas que largavam fumo e as mulheres que, apressadas, varriam a soleira das casas, de portas abertas, como era costume, para depois irem para a fábrica, em grupos.

À passagem, algumas sorriam para mim e acenavam, pedindo para eu ter cuidado com os carros!

Sabiam que eu ia para a escola, pois eu exibia, orgulhoso, a sacola com a imagem do Sandokan – o herói do momento - que o meu pai me ofertara, na véspera, numa ida a Guimarães.

Tudo me parecia intenso, as ramadas com uvas pintadas, as árvores de tons quentes, as fábricas no horizonte com suas altas chaminés de tijolos, os portões grandes da casa da Pena Amarela, o gado pastando no campo do Barreiro, antes de chegar ao Penedo, lugar de muitas casas baixinhas, de poucas assoalhadas, onde vivam as famílias de operariado do Vale do Ave, gente humilde, trabalhadora, de muitos filhos, como eu e tantos meninos, dos idos 70`s.

Em certas casas, as janelas tinham malgas com marmelada e as portas de madeira estavam franqueadas devido ao calor. Muitos viam televisão, a Escrava Isaura, telenovela brasileira que dava nos ecrãs a preto e branco àquelas horas no segundo canal, outros ouviam rádio, a Renascença, talvez.

Os sons atraíam a minha atenção e, caminhando, ia espreitando para dentro das casas, à procura de algo.

No bolso levava uns rebuçados de café, que ia chupando.

E, à direita, no caminho, no início da rua da escola, houve uma casa de onde saía uma melodia que eu gostava muito, porque, às vezes, tocava no rádio do carro do pai.

Abrandei, acabando por me quedar, sentado no empedrado junto à porta, abrigado da canícula, ouvindo “Depois do adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho, num volume generoso.

Brincando com as pedrinhas da calçada com um pau que encontrara, enquanto magotes de garotos passavam, degustava cada acorde, procurava entender cada palavra da letra, que me soava difícil!

“Quis saber quem sou, o que faço aqui…”, soava a canção, que me interpelava.

Fiquei por ali uns minutos, até acabar a música, que era épica, sem eu saber!

Sem vontade, levantei-me e retomei a caminhada, cantarolando a melodia, o que me embalou até à escola, onde fui chamado por uma senhora para me dirigir a uma sala e vestir uma bata branca, com o meu nome bordado, que trazia na sacola.

Oficialmente, começara o meu primeiro dia de escola, sentado numa carteira de madeira gasta pelo tempo, olhando a minha primeira professora, a dona Virgínia, uma jovem sentada numa secretária onde se podia ver um jarro com flores cheirosas.

A professora era meiga e sorriu para mim, mas aquela música ressoava ainda no meu consciente…

Ao fim da tarde, no regresso, passando de novo pela casa, a porta estava fechada e não se ouvia nada, o que me deixou tristonho. Nos dias seguintes, a música não tocou!

 

Anos depois, já adolescente, entendi a música e um dos seus significados.

Fora, como se sabe, o sinal usado, no Rádio Clube Português, para, a partir dos quartéis, o início de rebelião dos capitães de abril de 1974, na Revolução dos Cravos, que ditou a liberdade, com a qual me fiz homem!

 

Hoje, sempre que ouço “E depois do Adeus”, vêm-me à memória aquelas sensações, daquele início de tarde de outono, poucos anos depois da revolução, quando ouvi a canção de abril, com tanta emoção, embora, menino ainda, desconhecendo sua importância histórica.

Mas aconteceu na minha terra natal e eu, menino, inscrevi na minha memória, para todo o sempre!

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