Sigo Edward Simoni, músico de origem polca que interpreta este “Pan-traim”, desde a minha juventude.
Esta melodia, aos meus sentidos, cheira a mar, aos frescos nevoeiros matinais dos setembros e espelha as cores das areias da Póvoa de Varzim dos anos oitenta, quando a pele bronzeava degustando uma “língua da sogra! “Chora, chora, chora, que a mãezinha dá”, gritava o vendedor de cabelo grisalhos, todo vestido de branco, que passava entre os corredores das barracas coloridas…provocando risos nos veraneantes que o saudavam todas as manhãs…
São tantos e belos os temas de Edward Simoni que me fazem arrepiar. Poderia aqui referir vários, todos lindíssimos!
Edward Simoni é autor de inúmeros discos, mas este tema será, porventura, o que mais me faz sonhar, porque o ouvi pela primeira vez, quando estava de férias, na Póvoa de Varzim, remetendo para momentos da minha adolescência, no Passeio Alegre… onde todos caminhávamos felizes!
Havia comprado esse disco numa loja (foi amor à primeira vista quando o ouvi lá), na rua da Junqueira, a mais “especial” da urbe poveira para os da minha geração, onde havia quiosques que vendiam gelados, pastelarias com saborosos mil-folhas e muito comércio para gáudio das senhoras, co o a minha mãe Camila, mas também uma pequena uma loja que vendia miniaturas de automóveis.
Anos antes, quando criança, do lado e fora dessa montra, parara tantas vezes olhando um “carrinho” muito especial, que me encantava, que o meu pai Joaquim acabou por me oferecer quando percebeu o meu fascínio…
Sobre o disco de Edward Simoni, que tocou, tocou, tocou, recordo de o ouvir deitado no sofá, dormitando às vezes, só despertando quando terminava uma das partes e tinha de me levantar para o virar para o lado B. Coisas do passado! Depois voltava e partia de novo, deixando-me levar pela suavidade das melodias…
Ou no meu quarto, tocando numa K7 que tinha gravado a partir do disco para ouvir num pequeno rádio que tinha na mesinha de cabeceira…
Esse disco ainda cá “mora” em casa, guardado com muito carinho na minha coleção “retro” de vinil. Mais tarde, adquiri a versão em CD, com um som mais refinado, mas talvez sem a chama e fantasia do já quarentão de vinil…
Que bom recordar! É docinho, sabe a morangos com chantilly…
Ouvindo Tó Neto ... Recordando quimeras, nas cores garridas dos 80`s, que nos faziam felizes...
Eis uma música “maior” que me marcou, na transição da infância para a adolescência, no longínquo e marcante ano de 1983, quando ainda havia o comboio que passava em Fafe e me acordava todas as manhãs quando apitava!
Nesse ano mudara-me, com a família, de Guimarães, minha querida terra natal, para a então vila de Fafe, que me recebeu de braços abertos e onde fui tão feliz!
Esta extraordinária composição harmónica do português Tó Neto, já falecido, reflete uma tendência daquela época, quando a música eletrónica brilhava, para gáudio dos apreciadores, como eu, que se deleitavam com as séries e filmes de ficção científica a preto e branco, como a Guerra das Estrelas, o Espaço 1999 e, mais tarde, já a cores, a saudosa epopeia da Galáctica, que nos reunia a quase todos da nossa geração, cada sábado à tarde, à frente da caixa mágica. Era tão bom!!!
Porque recordar é viver, revisito de vez em quando esta bela melodia, do tempo do analógico LP e das cassetes, ouvindo-a vezes seguidas, de olhos voltados para dentro, em crescendo, para maximizar os sentidos da alma, que se embevece num banquete de arrepios, sorrisos e até lágrimas de saudades dos idos, como o meu querido pai Joaquim e a minha querida mãe Camila, que nos molham o rosto… e cujo sal saboreamos, num estranho exercício de masoquismo... ao qual não resistimos...
Nesses instantes em que estamos calados, ouvindo cada acorde, posso sem dificuldade, em imagens em alta-definição impregnadas numa memória de décadas passadas, regressar a um tempo em que fui feliz, na ignorância… da inocência...
E por lá ficar algum tempo, na varanda da casa dos meus pais, de tronco nu, cabelos longos ao vento, numa tarde de verão, quando, ao lado meu saudoso cãozinho, o Fiel, que afagava, lia bandas desenhadas do Major Alvega e livros das Aventuras do Cinco, enquanto contava os dias para, em setembro, ir para a Póvoa de Varzim, de férias… e ali tomar banhos de sol lendo o Autosport ou o Comércio do Porto, onde mais tarde acabei por trabalhar.
Era uma vida simples, sem luxos, mas repleta de sonhos singelos, de menino que ainda era, quando íamos ao cinema ao domingo à tarde com os amigos, comíamos uma broa de mel no bar do liceu, uma bola de Berlim acabadinha de fazer na padaria do sítio e bebíamos um Sumol fresquinho na esplanada da Arcada, vendo as miúdas passar, para lançar uns piropos sem maldade... rindo sem parar a cada anedota que um amigo contava...
E essas quimeras, nas cores garridas dos 80`s, que nos faziam felizes, foram partindo, corroídas pelo tempo, numa sociedade apressada que foi ganhando espaço nas décadas vindouras, arbitrária, de aparências, sem pachorra para as lamechices dos que, como eu, ousam ser assim… mais vagarosos…
Resta o privilégio de poder, sempre que houver tempo, com o volume que nos aprouver, saborear estas e outras músicas da “playlist” da vida, a minha, de cada um...