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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

23.03.22

Quando a noite cai

À sombra, como guiga à bolina

Armindo Mendes

azenhas Amarante.jpg

Palavras, forma de esboços de nós

Letras, formas de fios de água do peito

Rascunhos, formas de rabiscos a sós

Folhas brancas, formas de desabafo a eito.

 

Quando a noite cai, a luz esvai-se

Quando a noite cai, o semblante esmorece

Quando a noite cai, a vontade contrai-se

Quando a noite cai, o coração amolece.

 

Luz apagada, olhamos para dentro

Luz apagada, as nossas entranhas

Luz apagada, âmago em nós, ao centro

Luz apagada, rodopios em nós, suplicamos manhãs.

 

Sol raiou, acordar sobressaltado

Sol raiou, noite, ao postigo desassossego passou?

Sol raiou, vulto ao espelho, lavado

Sol raiou, não sei para onde vou.

 

Na rua, olho tudo, vejo pouco

Na rua, dou passos, sem em andar a pé

Na rua, o jornal do mundo louco

Na rua, como Pascoaes, tomo café.

 

Sigo a alameda, à beira rio, para a neblina

Sigo, costas ao sol, para o açude

Sigo à sombra, como guiga à bolina

Sigo inquieto, como poeta, do que não pude.

 

Sento no muro, Tâmega, confidente

Sento, procuro papel e caneta

Sento para escrever, sem jeito fluente

Sento, traço espírito meu em silhueta.

Amarante cidade rio Tâmega copiar.jpg

O Covelo, nas águas, espelho de nós

O Covelo dos gansos idos para algures

O Covelo das inundações sonhos levar

O Covelo dos arcos da ponte para nenhures.

 

Escrita de coisas em dia sem graça

Escrita sem nexos, após noite sem parar

Escrita de estados que alma perpassa

Escrita que o tempo vai esbater, sem obliterar…

 

Armindo Mendes, 23 de março de 2022