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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

16.06.21

Ò Ave ferido que segues para o mar!

Armindo Mendes

Rio Ave.jpg

O Ave é verde, o rio, este, que do alto da montanha, da Cabreira, atravessa o vale que batizaste. O Vale do Ave é verde, como as águas do padrinho de águas, açudes, cascatas e moinhos do verde Minho, hoje pálido, o rio que corre para a sua princesa, a Vila do Conde, a dos arcos perfeitos, onde o Ave se espraia pachorrento, sem o ânimo dos tempos imemoriais, quando do seu estuário, da sua alfândega e dos seus estaleiros saíram as naus e caravelas quinhentistas que mostraram as novas rotas ao mundo. Foste por isso também um descobridor, ò Ave.

O Ave é um rio envergonhado, escondido nos seus granitos, amargurado até, pelos que, despojados de civismo, há décadas o esventram com a poluição do “progresso” que lhe esvaia a alma de rio selvagem, de margens com bosques verdes. Ò Ave, o meu rio da meninice, da minha Guimarães, dos banhos nas tuas águas, nas Taipas, a praia dos remediados como eu fui, sem vergonha alguma,  ò Ave, meu rio que já não cheiras a frescura, ò Ave ferido que segues para o mar, ò Ave que hoje não quis cheirar,  perdão, não tens culpa. Tu que passas por tantas pontes, por tantas gentes, à espera que os homens bons, do presente e vindouros te deem a mão e te salvem, que te devolvam o fascínio e a frescura que atraiu vikings, celtas, romanos, cartagineses, suevos e viu, eu sei, os exércitos de Afonso Henriques, uma amálgama de povos guerreiros ou mercantis que subiram e desceram o teu leito, que fizeram este território, onde nasceu Portugal, sob tua bênção, meu rio Ave…