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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

13
Abr22

Na Páscoa, os jarros da Zirinha eram tão belos…


Armindo Mendes

jarro flor.jpg

Na minha memória, a Páscoa, nos idos anos 70 do século passado, era a fragância de flores dos tapetes coloridos nas estradas e caminhos que recebiam o Compasso, na aldeia...

 

Era o dia mais cheiroso do ano no meu lugar de Santo António, todas as primaveras, na idade da inocência.

Páscoa eram os asseios frenéticos da casa, dias antes, sob a batuta da minha mãe. Encerar o soalho da sala era tarefa dura, mas necessária, para aquele brilho e cheirinho especiais!

As idas à feira para comprar roupa e sapatos eram outro costume da época.

Páscoa era estarmos todos penteadinhos pela mamã, cheirosos com perfumes baratos, com camisa amarela de vastos colarinhos, calça vincada branca boca de sino e sapatos de verniz azul, tudo a estrear, como mandava o ritual, enquanto saboreávamos umas amêndoas cobertas de açúcar ou uns coelhinhos de chocolate.

Páscoa era, manhã cedo, ensonados ainda, receber o Compasso Pascal em casa, sonoramente anunciado, ao longe, pelos agudos das sinetas prateadas, que entravam felizes pela janela da sala, entre as cortinas tipo véu de noiva, balançando à brisa matinal.

Seguia-se o momento de beijar a imagem de Cristo, num crucifico adornado com flores pequeninas.

E o sorriso maroto para mim do senhor reitor, de vestes estranhas e dizeres impercetíveis, para a minha tenra idade.

Ele também nos salpicava com água, que a minha mãe dizia ser sagrada, mas só para os meninos bem-comportados, pensava eu, de mãos nos bolsos, a fazer figura, como os homens.

Lá em casa, a mesa da sala estava coberta por uma toalha branca, onde repousavam pequenos pratos tirados da cristaleira só naquele dia, com pedaços de pão-de-ló, doces brancos e muitas amêndoas. Também umas fatias de folar e cálices de vinho do Porto.

Por entre saudações calorosas e votos de saúde, oferecia-se aos mordomos do cortejo doces para saciar o apetite e metia-se um envelope branco num saco de pano trazido por um dos elementos mais jovens do grupo.

 

O azul do céu naquele dia era mais intenso do que nos outros domingos

 

As famílias, quase todas numerosas, saíam à porta das suas casas, impecavelmente limpas nas vésperas para receberem o Senhor, para saudar o singelo Compasso, exibindo colchas nas janelas e sacadas. Alguns lançavam pétalas de flores.

Os vizinhos conversavam, enquanto se ouviam nos céus os estrondos dos foguetes festivos lançados das redondezas do coreto, explicava o vizinho do lado.

Era uma atmosfera única, com os traquinas a correr para os campos, procurando as canas.

O azul do céu naquele dia era mais intenso do que nos outros domingos, dizia o meu pai, brincando. Os jarros da Zirinha eram tão belos no canteiro e os amores também.

Páscoa era ir depois ao padrinho Armindo, no velho Sinca 1100, do meu pai. Da rua D. João I trazia uma enorme rosca de trigo, que envergava ao pescoço, e uma nota de 100 escudos, com a imagem de Camilo e os seus bigodes, para o mealheiro, além da bênção e um saco de amêndoas de marca Vieira, bem saborosas.

No tasco do meu avô, onde éramos recebidos, a minha madrinha e tia Maria dizia, gargalhando sempre, que eu estava muito bonito e moreninho, e lá me dava uns rebuçados de café e um ovo de Páscoa, como bónus.

Nas ruas de Guimarães, cavalheiros engravatados engraxavam os sapatos à porta do café Milenário e meninos corriam alegres na calçada do Toural, entre as pombas que voavam sobre os jardins floridos e os bronzes altaneiros das igrejas barrocas da cidade-berço, badalando.

No caminho, de regresso, nas várias aldeias, íamos avistando outros compassos pascais que saudávamos com as mãos, a partir do carro, de vidros abertos.

Era muito bonito! Tantas sinetas tocando… Eu adorava e o meu pai também!

Páscoa era sentarmos à mesa ao almoço e comermos cabrito assado e arroz de forno, até não se poder mais.

Aqueles cheiros que da cozinha nos aguçavam o apetite e o meu pai sempre a chamar-me “Mindocas”, para me provocar uma risada de mimo. Sentava-me, à sua direita na mesa. À cabeceira, ele segurava por vezes a minha mão pequena. Ainda hoje sinto aquele toque quente!

E ainda vejo na mesa, em frente a mim, a minha mana com belas tranças e o meu mano mais novo desdentado, mas feliz, saboreando mais uma guloseima.

Páscoa era, à sobremesa, ter pão-de-ló tão fofo, doces brancos, leite-creme queimado sabendo a limão e poder provar um cheirinho de vinho do Porto Três Velhotes, o preferido lá em casa! Ah!!! Também havia pudim francês, para meu deleite.

Páscoa era alegria em família, o carinho do meu pai e o sorriso e a atenção da minha mãe, sempre muito bem arranjada.

Páscoa era, à tarde, sair ao largo para brincar com as crianças das redondezas, com mil cuidados para não estragar a roupa nova.

Jogar à bola estava expressamente proibido para não estragar os sapatos novos, que só voltaria a calçar aos domingos para ir à missa.

O jogo do lenço era um dos preferidos da pequenada. A macaca também, até ao lanche, com Sumol à mesa, bicas de pato e tantas amêndoas.

Páscoa era, ao fim da tarde, ir à igreja ver o recolher dos vários grupos de compassos pascais que tinham percorrido a terra, saudados pelos sinos a repique lá no alto da torre e por uma multidão de gentes alegres, como nós.

Quando éramos crianças, era tudo mais saboroso e mais cheiroso, e a Páscoa também, naquela e noutras primaveras!

Por estes dias de altos e baixos, recordo os meus queridos pais, ambos já na paz do Senhor, aos quais dedico este pequeno texto, agradecendo tudo o que de bom fizeram pelo “Mindocas” da casa lá de Pevidém: eu!

 

Armindo Mendes, 13 de abril

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