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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

07.08.22

Eu, menino, registei!

Abrandei, acabando por me quedar, sentado no empedrado junto à porta, abrigado da canícula, ouvindo

Armindo Mendes

Cravo de abril.jpg

Saí de casa, calção azul marinho vestido, sandálias nos pés, num outono, quente ainda.

Camisa meia-manga, amarelo torrado, de colarinhos abastados, banhinho dado, perfumado, penteadinho pela mamã, sacola da escola às costas, com livros e cadernos a cheirar a novos e lápis bem afiados. Ainda lembro aquele cheiro.

Sorriso nos dentes, um friozinho na barriga, menino petiz eu era, de partida para nova odisseia!

Era o primeiro dia da escola, onde iria finalmente apender a ler letras, o que tanto desejava.

Já não teria de pedir à mãe ou ao pai para me dizerem o que estava escrito nos letreiros das lojas.

Eu sabia que era um dia importante, porque disso falara antes com o meu pai, que, ao levantar da cama, lavando os dentes comigo, me encorajou com a sua voz serena para mim.

“Vai correr bem, Mindocas!”, disse, afagando-me o cabelo preto.

Já rua acima, caminhava feliz no empedrado da rua da Moura, onde habitualmente jogava à bola e outras brincadeiras, a caminho da escola da Ressa, olhando, ouvindo as folhas que pisava, cheirando, sentindo tudo à minha volta, sem saber, prelúdio de comportamento para uma vida vindoura.

Lembro o casario da aldeia, de paredes de granito, os carros que passavam, as motorizadas que largavam fumo e as mulheres que, apressadas, varriam a soleira das casas, de portas abertas, como era costume, para depois irem para a fábrica, em grupos.

À passagem, algumas sorriam para mim e acenavam, pedindo para eu ter cuidado com os carros!

Sabiam que eu ia para a escola, pois eu exibia, orgulhoso, a sacola com a imagem do Sandokan – o herói do momento - que o meu pai me ofertara, na véspera, numa ida a Guimarães.

Tudo me parecia intenso, as ramadas com uvas pintadas, as árvores de tons quentes, as fábricas no horizonte com suas altas chaminés de tijolos, os portões grandes da casa da Pena Amarela, o gado pastando no campo do Barreiro, antes de chegar ao Penedo, lugar de muitas casas baixinhas, de poucas assoalhadas, onde vivam as famílias de operariado do Vale do Ave, gente humilde, trabalhadora, de muitos filhos, como eu e tantos meninos, dos idos 70`s.

Em certas casas, as janelas tinham malgas com marmelada e as portas de madeira estavam franqueadas devido ao calor. Muitos viam televisão, a Escrava Isaura, telenovela brasileira que dava nos ecrãs a preto e branco àquelas horas no segundo canal, outros ouviam rádio, a Renascença, talvez.

Os sons atraíam a minha atenção e, caminhando, ia espreitando para dentro das casas, à procura de algo.

No bolso levava uns rebuçados de café, que ia chupando.

E, à direita, no caminho, no início da rua da escola, houve uma casa de onde saía uma melodia que eu gostava muito, porque, às vezes, tocava no rádio do carro do pai.

Abrandei, acabando por me quedar, sentado no empedrado junto à porta, abrigado da canícula, ouvindo “Depois do adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho, num volume generoso.

Brincando com as pedrinhas da calçada com um pau que encontrara, enquanto magotes de garotos passavam, degustava cada acorde, procurava entender cada palavra da letra, que me soava difícil!

“Quis saber quem sou, o que faço aqui…”, soava a canção, que me interpelava.

Fiquei por ali uns minutos, até acabar a música, que era épica, sem eu saber!

Sem vontade, levantei-me e retomei a caminhada, cantarolando a melodia, o que me embalou até à escola, onde fui chamado por uma senhora para me dirigir a uma sala e vestir uma bata branca, com o meu nome bordado, que trazia na sacola.

Oficialmente, começara o meu primeiro dia de escola, sentado numa carteira de madeira gasta pelo tempo, olhando a minha primeira professora, a dona Virgínia, uma jovem sentada numa secretária onde se podia ver um jarro com flores cheirosas.

A professora era meiga e sorriu para mim, mas aquela música ressoava ainda no meu consciente…

Ao fim da tarde, no regresso, passando de novo pela casa, a porta estava fechada e não se ouvia nada, o que me deixou tristonho. Nos dias seguintes, a música não tocou!

 

Anos depois, já adolescente, entendi a música e um dos seus significados.

Fora, como se sabe, o sinal usado, no Rádio Clube Português, para, a partir dos quartéis, o início de rebelião dos capitães de abril de 1974, na Revolução dos Cravos, que ditou a liberdade, com a qual me fiz homem!

 

Hoje, sempre que ouço “E depois do Adeus”, vêm-me à memória aquelas sensações, daquele início de tarde de outono, poucos anos depois da revolução, quando ouvi a canção de abril, com tanta emoção, embora, menino ainda, desconhecendo sua importância histórica.

Mas aconteceu na minha terra natal e eu, menino, inscrevi na minha memória, para todo o sempre!

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