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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

16.03.12

Candidatura de Fátima Felgueiras à Câmara de Felgueiras? Mantém-se o tabu…

Armindo Mendes

 

Sem nunca o assumir na entrevista ao Expresso de Felgueiras, não é descabido concluir-se que, interpretadas as entrelinhas, Fátima Felgueiras pode estar na corrida para a presidência da câmara.

Esse é um cenário que, se mais não for, no plano empírico, sempre se deve colocar. E como cenário deve manter-se durante mais algum tempo, quase como uma espécie de tabu que condicionará em certa medida os desenvolvimentos da política concelhia e as conversas de café.

Fátima Felgueiras goza ainda de grande prestígio e capacidade de influência em vastas camadas do eleitorado felgueirense, como se percebeu, por exemplo, na relevância que demonstrou nas recentes eleições na Cooperativa Agrícola de Felgueiras. Note-se que esse embate redundou numa vitória expressiva da lista apoiada publicamente por Fátima Felgueiras e Júlio Faria, seu aliado político de longa data.

 

 

Fátima Felgueiras capitaliza vitórias nos tribunais

 

 

 

Sabe-se, por outro lado, que a antiga presidente, por estar tão impregnada pelos dossiês municipais, gostava de poder regressar à liderança do município, retomando um percurso abruptamente interrompido por um terramoto eleitoral que a terá espantado.

Além disso, na ótica de cada vez mais gente, a prestação, aquém das expetativas, da atual equipa camarária acentua a ideia de que, em tese, Fátima Felgueiras poderá ter condições de derrotar Inácio Ribeiro numa nova contenda eleitoral autárquica, em 2013.

Vai ganhando robustez a convicção de que a antiga presidente se vai reabilitando à medida que, mês após mês, algum eleitorado interioriza um certo desapontamento quanto ao trabalho do atual executivo, sobretudo atentas as elevadas expetativas que foram produzidas.

Aliás, nos "sussurros" dos corredores municipais controlados, ainda, pela Nova Esperança admite-se que Fátima Felgueiras, pela sua capacidade de combate político, constituirá a grande ameaça ao poder vigente, cada vez mais fragilizado pelas fissuras na coligação PSD/CDS e pela recente saída de um dos seus pilares.

Mas, paradoxo ou não, a eventual candidatura de Fátima Felgueiras à frente de uma lista independente até pode constituir o grande empurrão para o PSD renovar a vitória… E os laranjas sabem-no, olhando com um sorriso maroto a possível divisão do eleitorado da área socialista. Dando como certo que Fátima Felgueiras quer ser candidata.

Mas, não menos autêntico é que do querer à concretização de uma candidatura com potencial ganhador vai uma enorme diferença. Desde logo, porque a conjuntura económica é adversa para se avançar com uma batalha eleitoral, sem o apoio das máquinas partidárias e que, por isso, obrigaria à mobilização de significativos meios financeiros, sem quaisquer garantias substantivas de vitória.

O que Fátima Felgueiras gostaria, com certeza, era liderar uma candidatura numa lista do PS. Juntar-se-ia assim o útil ao agradável, pensará a antiga autarca. Útil, porque uma candidatura nesse contexto teria, obviamente, mais hipóteses de sucesso; agradável porque constituiria o regresso da antiga presidente ao partido em que militou durante tantos anos.

É neste ponto que muita coisa se pode decidir nos próximos meses, nos jantares e almoços mais ou menos públicos que se vão fazendo nos insuspeitos restaurantes. Com a aproximação das eleições, nomeadamente o "timing" certo para acertar estratégias, alianças e candidatos, o PS e as hostes ligadas a Fátima Felgueiras terão de se entender, pelo menos se estas duas forças, que sociologicamente são apenas uma, na área socialista, desejarem afastar a Nova Esperança do poder.

Uma terceira via, com um acordo entre as partes, que não inclua a candidatura de Fátima Felgueiras, mas o envolvimento desta no processo liderado pelo PS, poderá ser uma saída para o aparente imbróglio.

 

 

Fátima Felgueiras tira o sono à Nova Esperança?

 

 

 

Mas não é especulação concluir que uma candidatura de Fátima Felgueiras à frente do PS, agora que a antiga presidente se reabilitou politicamente com sucessivas absolvições em tribunal, constituirá uma força suficientemente poderosa para tirar o sono aos que têm assento na casa branca municipal.

E nesses têm-se registado mudanças. Desde logo no executivo municipal, com a saída do vereador Eduardo Teixeira, que alegou "motivos pessoais".

 

 

Mudanças perturbadoras no executivo?

 

 

 

A renúncia ao mandato deste carismático dirigente do PSD/Felgueiras, que foi o diretor de campanha das últimas eleições, é um elemento perturbador na Nova Esperança, desde logo porque era o vereador do influente pelouro do Desporto, no âmbito do qual estava a ter um desempenho muito elogiado, graças à capacidade de diálogo com os clubes que sempre revelou.

Acresce, por outro lado, que Eduardo Teixeira representa há muitos anos a "alma" dos militantes de base daquele partido. Aliás, era o único que o fazia no atual executivo.

Face aos desenvolvimentos, só o tempo responderá às dúvidas que se colocam quanto ao grau de participação de Eduardo Teixeira, em termos partidários, no que vier a seguir.

Se, fruto das circunstâncias políticas ou outras, Eduardo Teixeira deixar de ser o que sempre foi, isto é, um elemento, no terreno, tipo "formiguinha", mobilizador dos militantes e, acima de tudo, aglutinador de tendências, o partido laranja ficará mais frágil, cada vez mais distante das bases.

Um partido, aliás, que, recentemente, para espanto, até passou a ser liderado por Inácio Ribeiro, o presidente da câmara.

Face aos desafios que se perfilam no horizonte, mormente o sempre complexo e absorvente processo de preparação das autárquicas do próximo ano, não deixa de ser, no mínimo, curioso que essa responsabilidade fique nas mãos de alguém que, pela natureza do seu cargo autárquico, é suposto estar assoberbado pelas dores de cabeça da gestão municipal.

Face à saída de Eduardo Teixeira, que estava a meio tempo no executivo, a Nova Esperança respondeu prontamente com a substituição, cumprindo o que determina a lei, isto é, tomando posse o elemento seguinte da lista.

Mas a maioria não se ficou por aqui: transformou o meio tempo de Eduardo Teixeira num tempo inteiro da nova vereadora Dulce Vieira, à qual foram confiados pelouros objetivamente menos exigentes.

Numa altura em que se pede contenção de gastos na gestão pública, a câmara respondeu em sentido contrário, aumentando os encargos com a componente política, decorrente do tempo inteiro da nova vereadora. Ora, numa fase em que o simbolismo é mais importante do que nunca, face à crise que afeta grande parte do país, a Nova Esperança transmitiu para a população um indicador em sentido oposto, o qual, acredito, muitos felgueirenses não deixarão de desaprovar.

 

 

Armindo Pereira Mendes

In Expresso de Felgueiras, de 15 de março de 2012.