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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

10.07.06

> EDITORIAL DE "O JORNAL DE AMARANTE", de 6 de Julho

Armindo Mendes
Amarante perdeu!
A reunião do ministro da Saúde com o presidente da Câmara acabou por ditar aquilo que já se esperava: a “morte” anunciada da maternidade de Amarante.Correia de Campos foi intransigente na questão, de nada valendo os protestos dos amarantinos.
O governante informou Armindo Abreu que as urgências médico-cirúrgicas vão manter-se abertas entre as 8h00 e as 22h00 e que o hospital vai perder a sua autonomia, passando a funcionar de forma articulada com o de Penafiel. Foi também prometido que um estudo em curso à reorganização funcional do Hospital de Amarante poderá conduzir à realização de obras, potenciando a sua vocação para as cirurgias de ambulatório.
No meio de tantas promessas, apetece-me dizer que não há, de todo, razões para sorrir, tanto mais que a única garantia que há é a palavra do ministro, numa altura em que ser-se governante é algo cada vez mais efémero. Sobre a questão da maternidade, mantenho a opinião: acho que os nossos governantes andam a brincar com os nossos impostos. Como é possível gastar-se, há cerca de três anos, cerca de 700 mil euros para se renovar aquela valência e agora simplesmente decide-se fechá-la. Não sei de quem é a culpa, se dos responsáveis do anterior governo que decidiram fazer as obras sem analisar tecnicamente se a continuação da valência se justificava, se dos actuais governantes que, à revelia dos investimentos realizados, entenderam pôr termo à maternidade amarantina.
Como português que paga os seus impostos, sinto-me insultado com a flagrante falta de coerência nas políticas dos governos que se sucedem, que tantas vezes, de forma irresponsável, redunda em situações como esta. Quanto às urgências, mantenho que a decisão se justifica por exclusivas razões economicistas. É certo que, durante a noite, se estava a gastar muito dinheiro numa equipa de profissionais que atendia um número muito pequeno de doentes. Mas não menos certo, é que encaro esses encargos como custos sociais que a tutela tinha a obrigação de continuar a suportar, porque os poucos que ainda vivem nestas paragens do interior também têm direito a serviços de saúde que nos garantam alguma tranquilidade.
Sei que estas minhas palavras são uma espécie de “pregação aos peixes” numa sociedade cada vez mais resignada à frieza dos números. Eles, os poderosos da capital, não estão preocupados connosco, porque são atendidos com todos os cuidados, de preferência em clínicas privadas. Se vivessem em Rebordelo, em Salvador do Monte ou noutra qualquer freguesia “longínqua” teriam certamente uma opinião diferente, porque, confrontados com as estradas serpenteantes que por cá existem constatariam que a sua saúde e a da sua família poderia perigar com decisões políticas tão tecnocratas como as que têm vindo a ser tomadas.
Para um reformado idoso, oriundo das zonas mais afastadas do concelho, que se sinta indisposto a meio da noite, uma deslocação ao hospital de Penafiel poderá ser demasiado onerosa ou, nas situações mais graves, mesmo de ambulância, demasiado demorada, ao ponto de fazer perigar a sua vida. Já em relação aos anúncios de obras no hospital, apetece-me lembrar que “promessas leva-as o vento”. E as aragens daquelas bandas não são bonançosas.
Estou absolutamente descrente nesse cenário, porque irá contra a recorrente estratégia da tutela, que tem travado muitos investimentos que estavam prometidos em várias áreas. Receio que tenha sido apenas para calar os que por cá são mais crédulos nos ditames do statu quo.Há dias, um homem idoso, sentado à mesa do café, que ouvia na TV o anúncio do encerramento do Serviço de Atendimento Permanente de uma pequena vila do interior alentejano, comentava com o seu colega de mesa: “O melhor era entregar estas terras a Espanha e acabavam as dores cabeça dos tipos de Lisboa. Assim, quem quiser continuar português vai viver para o litoral, ou, por uma questão de masoquismo, fica na sua terra à espera de morrer”.
Este comentário, que tinha sido feito numa linguagem mais terra a terra do que a por mim aqui reproduzida, que incluía também alguns impropérios aos políticos, roça o exagero, mas não deixa de transparecer a sensibilidade popular de um povo lusitano de parca formação, mas suficientemente lúcido para perceber o que o rodeia.
Muitos idosos, estes de Amarante, também se manifestaram na vigília realizada na semana passada junto ao hospital. Viam-se lá muitas caras conhecidas, mas predominavam os ditos cidadãos anónimos, sobretudo os que, como o alentejano, têm dificuldades em aceitar que lhes seja retirado do hospital da sua terra um bem precioso: o direito à assistência na saúde.
O presidente da Câmara disse aos colegas de vereação que vai estar atento e pressionar o Ministério da Saúde no sentido de cumprir o prometido relativamente à reformulação do modelos funcional do hospital. Temos razões fortes para acreditar que Armindo Abreu terá uma legitimidade acrescida para o fazer, simplesmente porque a sua postura até hoje neste processo, nada dada a acções mais extremadas contra o despacho do ministro, deverá ser credora de uma acrescida capacidade de influência junto de Correia de Campos.
Armindo Mendes