Lá fora chove miudinho, o dia está cinzento, a levada corria triste na caminhada, quase noite, sem luar!
O Natal já passou!
É inverno! Eu gosto assim, sem arrependimento!
Há um vento, lá fora, que toca as gotículas na vidraça da janela deste canto!
Que a percorrem, de alto a baixo, devagar, como afago num corpo de mulher.
Sozinho, vejo-as, as gotas, como as noites, soçobrarem, com as impotências das verdades por dizer, das idas sem partir, das voltas sem ousar, das pontes por passar!
É, quiçá, janeiro, talvez um sábado, como o piano que abre a canção, até à primavera, até à bonança!
Manta aconchegando o meu colo, encosto a cabeça, apago a luz. Fecho os olhos para ver melhor as sombras, abraço os anjos também, num céu azul sobre um manto verde encantado!
Outra vez, levanto o volume!
Eu quero tanto este som, como dopamina que me queima, sem queixa, sob controlo!
À procura de sentir mais e mais o momento, masoquismo talvez! Não faz mal!
Deixo correr a lágrima no canto do olho, sim ela, velha conhecida, vem sempre à tona d’água, para percorrer as rugas!
Saboreio o seu sal, com travo a camomila!
Desta canção ressoam os baixos, no peito, que bate forte!
E o alarido da guitarra que formiga os lábios, ansiosos, de vontades idas!
Eu!
E a voz da canção, redonda, como eu gosto, com ecos pretéritos, com verbos que rememoram as coisas dos arrependimentos, das voltas da vida, dos becos sem saída, dos silêncios que doem, a cada revisita…
Como adolescentes outra vez, de futuros infinitos!
Há músicas que nos fazem bem ouvir, no lusco-fusco da tarde, que se esconde atrás do rio, que quase se precipita nas ondas do Atlântico…
Deixarmo-nos levar pela melodia, pelo toque do sonho a preto e branco, pela “estória” triste da canção, imaginarmo-nos algures, numa fortaleza, contemplando...
Ou do alto de um coreto romântico, numa alameda com camélias brancas, jardins à espera do rebentar da folha… e calçada à portuguesa pombalina para trilhar, sem estragar…
Olhando o horizonte, com a Sagres altaneira, velas pátrias brancas ao vento Norte, num quinhão do Lima, ameno, de onde, porém, bradam ecos que não conseguimos calar… imaginando a lonjura, tão perto, ali!
Sigo Edward Simoni, músico de origem polca que interpreta este “Pan-traim”, desde a minha juventude.
Esta melodia, aos meus sentidos, cheira a mar, aos frescos nevoeiros matinais dos setembros e espelha as cores das areias da Póvoa de Varzim dos anos oitenta, quando a pele bronzeava degustando uma “língua da sogra! “Chora, chora, chora, que a mãezinha dá”, gritava o vendedor de cabelo grisalhos, todo vestido de branco, que passava entre os corredores das barracas coloridas…provocando risos nos veraneantes que o saudavam todas as manhãs…
São tantos e belos os temas de Edward Simoni que me fazem arrepiar. Poderia aqui referir vários, todos lindíssimos!
Edward Simoni é autor de inúmeros discos, mas este tema será, porventura, o que mais me faz sonhar, porque o ouvi pela primeira vez, quando estava de férias, na Póvoa de Varzim, remetendo para momentos da minha adolescência, no Passeio Alegre… onde todos caminhávamos felizes!
Havia comprado esse disco numa loja (foi amor à primeira vista quando o ouvi lá), na rua da Junqueira, a mais “especial” da urbe poveira para os da minha geração, onde havia quiosques que vendiam gelados, pastelarias com saborosos mil-folhas e muito comércio para gáudio das senhoras, co o a minha mãe Camila, mas também uma pequena uma loja que vendia miniaturas de automóveis.
Anos antes, quando criança, do lado e fora dessa montra, parara tantas vezes olhando um “carrinho” muito especial, que me encantava, que o meu pai Joaquim acabou por me oferecer quando percebeu o meu fascínio…
Sobre o disco de Edward Simoni, que tocou, tocou, tocou, recordo de o ouvir deitado no sofá, dormitando às vezes, só despertando quando terminava uma das partes e tinha de me levantar para o virar para o lado B. Coisas do passado! Depois voltava e partia de novo, deixando-me levar pela suavidade das melodias…
Ou no meu quarto, tocando numa K7 que tinha gravado a partir do disco para ouvir num pequeno rádio que tinha na mesinha de cabeceira…
Esse disco ainda cá “mora” em casa, guardado com muito carinho na minha coleção “retro” de vinil. Mais tarde, adquiri a versão em CD, com um som mais refinado, mas talvez sem a chama e fantasia do já quarentão de vinil…
Que bom recordar! É docinho, sabe a morangos com chantilly…