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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

21.05.22

Vangelis - partiu um dos meus heróis

Vangelis era um visionário!

Armindo Mendes

Vangelis capa.jpg

Na quinta-feira, 19 de maio de 2022, morreu Vangelis, com 79 anos.

Foi um choque para mim, porque era um dos meus heróis!!!

Por isso, só hoje, sábado, consigo escrever estas letras, de coração apertado!

“Hymn”, do álbum “L'opéra sauvage”, de 1979, que foi genérico de um programa televisivo com o mesmo nome, foi e é o meu tema preferido do autor: um hino à vida, um espelho para mim!

Vangelis era um visionário! A sua música acompanhou-me, praticamente, toda a vida.

Desde criança que me habituei à sua sonoridade, à sua melodia, à sua espiritualidade, ao seu caráter visionário no panorama artístico.

Tantos e tão belos momentos proporcionados pela música maravilhosa do enorme e incomparável Vangelis.

Muito pequeno ainda, eu já era um apaixonado pela música eletrónica, um estilo repleto de sintetizadores, que teve nos anos 70 do século passado uma enorme importância para aquilo que é a música hoje, com Vangelis como uma das suas estrelas maiores.

Comecei muito cedo a adquirir os seus discos, primeiro em vinil, mais tarde em CD e DVD. Tenho dezenas deles na minha coleção!

Usei-os na rádio, quando fui autor de programas radiofónicos. Algumas das músicas do compositor grego até foram genéricos de rubricas, cujos textos e por vezes locução foram assinados por mim nos tempos da rádio.

Chariots of Fire, de 1981, Blade Runner, de 1982, Conquest of Paradise, de 1992, e Alexander, de 2004, foram algumas das suas obras-primas para cinema. Outros discos foram espetaculares, nomeadamente os realizados com o vocalista Jon Adernson, com destaque para Friends of Mr. Cairo, uma obra-prima!

A premiada série “Cosmos”, de Carl Sagan, que eu adorava em criança, tinha como genérico um tema de Vangelis e o famoso programa radiofónico Oceano Pacífico também abria com uma composição do compositor helénico.

Costumo dizer que pessoas como Vangelis e outros talentosos criadores nunca morrem, porque, quando partem, deixam as suas obras para perpetuar em todos nós a sua mestria, que me inspirou em tantos momentos criativos, à frente de uma máquina de escrever!

Vangelis e a sua portentosa obra, com tantas nuances e estilos, deixam um vazio enorme, mas ficarão no meu coração.

A melhor forma de sublinharmos o seu legado é continuarmos a ouvir as suas extraordinárias composições, como faço quando escrevo estas linhas!

Obrigado, Vangelis!!! Descansa em paz!

 

 

10.05.22

Que sonho aquele!

Fui voando, vendo tudo lá de cima

Armindo Mendes

Naquela jornada ousei, levantei do ninho, batendo certas asas que não sabia possuir.

Que voo aquele, fingindo de albatroz, a partir da Princesa do Tâmega, num dia quente de maio, mas temperado por aguaceiros! E lá fui guinando a estibordo e a bombordo, consoante os caprichos da rosa dos ventos, como ventura de estar vivo.

Subi alto e vi nuvens, serras e mares, com formas de água, em jeito de devaneios, utopias, quimeras.

E, tímido, fui voando, vendo tudo lá de cima.

Apendera a esvoaçar!

Que sonho aquele!

10.05.22

Voltou logo o rosto com aquele olhar vazio

Debatia-se, com os mil obstáculos urbanos

Armindo Mendes

flor vermelha.jpg

Acabara de tomar café numa confeitaria do Porto, igual a tantas outras, apinhada de gente desconhecida para mim!

Era ao lado da clínica. Eu saíra, há instantes, de uma consulta médica e pensava nos altos e baixos da vida… olhando a rua, por trás do vidro, e o rebuliço matinal na invicta, numa segunda-feira, algures na Boavista, com sol em todo o lado.

Passara, sem afico, os olhos no ecrã do tablet, agastado com as notícias da guerra, de um certo jornalismo que faz “escola” por estes dias… em que só o superficial importa ao rebanho, quase sem direito à diferença.

Respondera a umas quantas mensagens de trabalho, despachando assuntos e passando os olhos pelas páginas pintadas de azul do JN, em rescaldo ao FC Porto campeão, para meu contentamento.

Olhava para as pessoas que iam conversando nas mesas vizinhas, a maioria idosos, e o ar atarefado de quem servia aos clientes torradas pejadas de margarina derretendo… e galões transbordando.

Meio agoniado pelo ambiente, acabei saindo, após pagar a conta ao sisudo empregado que atendia tudo e todos ao mesmo tempo! Deu-me o troco, esticando a mão, enquanto já olhava para outro cliente!

Do lado de fora do estabelecimento, dei comigo a olhar para uma senhora de meia-idade, ao fundo da rua, impecavelmente vestida, com uma mochila amarela às costas, que andava muito devagar na rua. Percebi que era cega.

Debatia-se, com paciência, com os mil obstáculos urbanos e aproximava-se de uma passadeira para peões, em plena selva urbana.

Fique ali parado a observá-la. Quedou-se, finalmente, junto à passadeira. Parecia insegura, nervosa, até!

Quase por instinto, dirigi-me à senhora, perguntando-lhe se precisava de ajuda.

Voltou logo o rosto para mim, com aquele olhar vazio, que me tocou, e disse que apenas queria atravessar a rua.

Perguntou-me se estava vermelho para os peões. Respondi-lhe que sim!

- Não se preocupe, eu ajudo-a a atravessar, disse-lhe.

Aguardei uns instantes ao lado dela que o sinal verde para os peões acendesse, enquanto os carros iam passando, apressados e estremecendo o chão. A motas frenéticas das pizas e um carro do INEM a toda a velocidade pareceram assustá-la.

Acabei, depois, por ajudá-a a atravessar a rua, avisando-a, também, para o degrau traiçoeiro do passeio.

Do lado de lá da rua, a senhora agradeceu e seguiu o seu caminho, devagarinho, rua abaixo, ziguezagueando, ao desviar-se de um poste de iluminação e de um quiosque de raspadinhas, perante as demais pessoas que por ela passavam, indiferentes. Olhavam, mas não a viam, estavam cegas pelas sofreguidão de raspar à procura da sorte!

Eu não! Ave rara, sei lá porquê!

Fiquei mais uns instantes, parado, a olhá-la, de coração apertado, cabisbaixo, um pouco!

Será que a devia ter acompanhado para a continuar a ajudar, sabe-se lá até onde, com os meus olhos, questionei-me quando me dirigia para o meu carro estacionado nas proximidades austeras.

E lá subi a rua, devagar, olhando em volta e a pensar no que acabara de sentir.

Para os meus botões dizia ser um sortudo por poder ver! E como será o mundo dela e dos outros que não conseguem ver.

Escuro, o mundo, talvez, pensei!

Que a luz da sua alma ilumine o seu destino, ao cheirar, quiçá, uma rosa no Palácio de Cristal, ao ouvir um sussurro ao ouvido de alguém que ame e ao saborear uma cereja.

Ou, no rosto, sentir a brisa marítima, na barra do Douro, abrigada pelo nevoeiro e protegida pelo foco do farolim!

 

Armindo Mendes, 10 de maio de 2022