Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

26.02.22

Muros de dourado xisto!

Armindo Mendes

flor de amendoeira por do sol.jpg

Que delícia, querer muito deter o tempo, profundo…

Aguarela do iluminismo, com cheiro e tudo!

Pintar este cantinho do mundo…

Sei não poder, mas esforço-me, sem dor alguma, contudo!

 

Sôfrego, por agarrá-lo!

Tonto, meto a cabeça entre os ramos…

Para me perder em volúpia de regalos!

Os sentidos, arrepiados, desfrutam, sonhamos…

 

Qual pintor na tela que pincela com fervor!

Na colina à beira da estrada, debaixo da amendoeira…

De joelhos, ergo olhos e alma para céu mágico, em fervor.

Prenúncio, Primavera, azul de firmamento, como na vez primeira.

 

Paleta de cores em aguarela.

Que contraste com a candura das flores brancas, singelas.

Que dançam à brisa, valsa de violinos, como à janela.

Apetece tocar, com delicadeza, na cara rosada delas!

 

Como as cordas do instrumento, afagá-las, com jeitinho…

Para não magoar imensa dádiva da mãe-natureza.

Tê-las na palma das mãos, com tanto carinho!

 

Fazermos parte daquele mundo, em devaneio até ao ocaso,

Sinfonia em murmúrios ressoa no horizonte breve!

Olhar cintila, banqueteia-se, embriaga-se neste compasso!

Como flauta andina em deriva nas florzinhas de pétalas de neve.

 

Açucaradas, elas, pontos de amarelo-torrado, rosa ou tons de mel.

Abrir alas para as obreiras, como liras, com zumbidos atarefados.

Do pólen extraem, acentuam a fragância, perfume floral

Sim, mel de Olimpo, para adocicar os anjos feitos fados.

 

Sobre o vale da Vilariça ou paredes-meias com o Coa das gravuras.

Que olhos pasmam, ao lado do pachorrento do Sabor.

Rios milenares de mineiros, fios de azeite, néctares de Baco, formusuras.

E das castanhas para magustos de outono, tanto calor!

 

É incrivelmente retemperador correr aqui como caracol,

Entre amendoeiras em flor, subir à rocha para a fotografia,

Neste clímax sazonal da natureza humanizada, sob tanto sol.

Calçadas medievais com muros de dourado xisto que havia…

 

Que acentuam bermas pintadas pelas árvores, em alamedas,

Com vestes brancas sem fim, carregadas de frutos secos, cobiçados…

Que saboreamos, às vezes, sem culpa, na Torre do Relógio, em Meda…

Passarada, sem saber, canta para ouvidos deleitados…

 

Rituais de acasalamento, que belo concerto, de tantos sopros…

Com o Douro azul, qual Danúbio, escarpado, ao fundo, no horizonte.

Breve brisa de inverno, às portas de castelos, ruínas de aldeias sem corpos,

Peito aberto, à espera de tudo, mergulhar nos bosques de cada monte.

 

O fim de tarde chegou, com a pressa dos dias petizes.

Segundo movimento da sinfonia: o pôr do sol, cor de citrino…

Atrás das encumeadas, nuvens imitam amendoeiras felizes.

Para ficarem mais sublimes, de tons dourados, um hino.

 

Efémeros é certo, mas belos que as óticas dos homens ousam registar, sem sucesso!

A noite caiu, à espera de nova aurora neste cénico mundo!

Natureza e sabedoria milenar dos Homens bons de Trás-os-Montes que nem conheço!

Forasteiros, perante quadro de belezas, somos gratos, em gesto fundo!

 

Tanto que estas letras parvas não conseguem alcançar.

Só a alma, como o luar de Torre de Moncorvo e os nossos antepassados do Coa…

Souberam sentir e guardar no coração, numa pétala de flor de amendoeira ao ar

Ou num esboço paleolítico, no xisto, traçado, sem voz, ecoa!

 

Armindo Mendes, 26 fev 2022

25.02.22

Os que, como nós, inspiram mais que uns tantos

Armindo Mendes

Paisagem templária Mogadouro.jpg

Castelo de Mogadouro.jpg

FOTOS: Armindo Mendes (Direitos Reservados)

Há castelos e alcáceres assim, como o de Mogadouro, de cruzes cravejadas nas rugas das paredes, vestidos com história de ouro e de sangue, páginas templárias, torres de ameias apontadas ao céu, espadas reluzentes imaginárias que fantasiamos, em busca de ajuda celeste nas lutas canonizadas com os sarracenos.

Lá do alto da fortaleza dos homens, os primeiros portugueses com bandeira, avista-se atrás da montanha a Hispânia, dos de Léon, nossos avós romanos, como nós, que o destino quis desligar e depois unir na corrida aos da fé diferente da nossa, mas de tantos legados.

Que belo, hoje, é olhar tanta calmaria nos campos quase sem gente, que partiu à procura de vidas melhores, da Terra Fria transmontana, onde, refletidas nos rios da vida, filhos do Douro, as amendoeiras, as oliveiras e as vinhas, com seus frutos milenares, em socalcos quase geométricos, nos proporcionam tanto prazer ao palato, ao olfato, às vistas e ao peito dos seres maiores, os que, como nós, inspiram mais que uns tantos.

Armindo Mendes

24.02.22

'Kiev, a candle with a flame...' - BJH

Armindo Mendes

'Kiev' é o nome de uma bonita balada dos Barclay James Harvest (BJH), de 1987, do álbum ‘Face to Face’.

A música tem, portanto, 35 anos, e terá sido, porventura, uma premonição do que está a acontecer, por estes dias, com a invasão russa à Ucrânia.

Curiosamente, esta versão ao vivo, com voz de Les Holroyd, que agora partilho com emoção, foi tocada num concerto realizado em Berlim Leste, quando a Alemanha era ainda um país dividido a meio (RFA(RDA), fruto da guerra fria, de má memória.

Vale a pena ouvir a melodia e perceber a letra da canção.

 

Kiev, a candle with a flame

You'll never be the same

Our hearts go out to you

And what you're going through

They've thrown away your past

Just like an empty glass

Into the fire

22.02.22

Ora carvão, longe ou perto de nós, os outros.

Armindo Mendes

Às vezes, a nossa alma, cova de desassossegos, transfigura o que os nossos olhos veem!

Inebriados por formosura e graça mil das flores das amendoeiras, levantamos o rosto para o calor, são pontos de luz de alva e difusos que nos interpelam a cada momento, cada piscar de olho, cada franzir, cada fogacho de sorriso de nós desnudado sob o azul céu, celeste até não podermos mais, cada ponto de epiderme, cor de xisto, subtil como o Tua.

O astro, fonte de vida, é soberano. Obscurece, com brilho de quartzo, o ferro de Moncorvo dissimulado em nuances de candeeiro, a luz nossa, tão fraca quanto a pétala de camélia de Basto que o vento leva.

Não longe de Marialva, aldeia cofre de tanta história, apontamos a lente, projeção de nós, sob tanta inquietação e registamos, sem filtros, na quietude da contemplação, a inquietação de sermos, afinal, tão frágeis, tão suscetíveis, levados pela torrente de tão humanos, como os das gravuras do Coa, no cantinho das quimeras, ora neve, ora carvão, longe ou perto de nós, os outros.

Candeeiro Meda contra-luz.jpgFOTO: Armindo Mendes (Direitos Reservados)

Pág. 1/2