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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

27.10.21

Dádiva, alvorada precoce

Armindo Mendes

Flores vermelhas.jpg

O coração dita coisas num cantinho de silvestres flores…

E ele, o coração, bate, cresce, sabe disso!

Abri-lo é sentir delírios, às vezes dores…

Depois, as abelhas lá do Marão vão lavar a alma, qual feitiço!

 

Que bela colmeia de coisas doces,

O mel feito alma, inocência, em cada um!

Colmeia intimista dádiva de luz, alvorada precoce…

Ou dia de primavera sob chuva de estrelas, ainda em jejum.

 

O coração é reportório de coisas, às vezes rechonchudas…

E cabe sempre mais um bocadinho, grande ou pequenino.

E apertar cada pitada, em palavras ao ouvido, carnudas…

Para o antro se tornar terno, agridoce ou de travo fino.

 

E deixar entrar mais abelhas do pólen neste sublime caminho…

Da felicidade, da paz, da querença, da vontade de dar, que não finda.

As obreiras são assim, voam baixinho, são mensageiras do amor…

Em abraço, da vida, da esperança, que coisa, meu Deus, tão linda!

 

Armindo Mendes

19.10.21

Olhos húmidos para dentro, sem saber porquê

Armindo Mendes

Árvore outono.jpg

Quero gritar em silêncio para ninguém ouvir.

Quero gritar calado para os mal espantar.

Quero gritar murmúrios para o pesadelo partir.

Quero gritar segredos, mordaças libertar.

 

 

Cerro o punho e esmago sonhos reprimidos.

Cerro o punho e aperto afeições do passado.

Cerro o punho e agito fantasmas de projetos falidos.

Cerro os punhos e calo-me, sisudo, num mundo fechado.

 

 

Olhos húmidos que, ao zimbro, se perdem por aí.

Olhos húmidos para dentro sem saber porquê

Olhos húmidos menos lá, mais aqui

Olhos húmidos, estafados de tudo e não sei o quê!

 

Armindo Mendes

19.10.21

Para o coração de Amarante, fitá-lo!

Armindo Mendes

Rio Tâmega Amarante04.jpg

Abro os braços meus para abraçar cada bocadinho

Abro o peito meu para sentir cada pedaço

Abro o coração meu para palpitar o carinho

Abro a alma minha para saborear o teu regaço.

 

 

Caminho ali entre carvalhos, becos e guigas

Caminho de mão dada com o rio dos altos poetas

Caminho na passerelle de belas raparigas

Caminho em solos de pintores a óleo e quiçá profetas.

 

 

Abro os olhos meus e vejo o manto da princesa

Abro os olhos meus e vejo os sabores dos conventos

Abro os olhos meus para as preces ao beato, a promessa

Abro os olhos meus tacteio as rosas dos ventos.

 

 

És bela, ò terra de gentes grandes das artes

És belo, ò Marão hirto nos cumes de orgulho imenso

És belo, ò Tâmega quando chegas ou quando partes

Sois belos, Amadeo ou Pascoaes, de esplendor intenso.

 

 

Afago os jardins das resistências heroicas ao franco canhão

Afago as praças das cheias que sangram as nossas memórias

Afago as pontes, açudes e azenhas de tempos que já lá vão

Afago violas com corações e rabecas das amarantinas histórias.

 

 

Subo a São Pedro, subo a São Domingos e a Santa Clara, em encanto

Subo as calçadas dos já partidos e miro a varanda dos reis, de São Gonçalo

Subo à Madalena, São Veríssimo, Santa Luzia e ao Covelo, que olho com espanto

Subo ao Conselheiro ou Solar dos Magalhães para o coração de Amarante, fitá-lo!

 

Armindo Mendes

18.10.21

A brisa que refresca a alma...

Armindo Mendes

E há rios imensos de sonhos para contar, só há que abrir as asas e voar.

Sem medos, deixar a caneta voar, voar, voar!

rio Tâmega Amarante.JPEG

É lindo olhar o mundo lá de cima, ficar tão leve e sentir a brisa que refresca a alma.

Que espicaça nas asas de um devaneio que se pode contar em estrofes de encantar.

E fazer cantigas de amigo ou cantigas de amor, sem contar, com ritmos e tons que as letras vão mostrando como notas musicais!

07.10.21

Num mar ao avesso?

Armindo Mendes

mar salgado.jpg

Sentado numa rocha vejo a luz do meu mar

Estou ali, só, e vejo a minha pele descoberta

A água é sal que chega para a dor atiçar

A maresia de Norte com a alga partiu para parte incerta?

 

O Norte, como a estrela, diz-se, é o rumo ao polo certo

Mas como é o polo do Norte ou do Sul num mundo ao avesso?

O sol na linha do horizonte à espreita da Boa Esperança ou do deserto

A tempestade trará a bonança? É como eu, trovador, assim peço.

 

No meu mar vejo marujos e sereias envoltos em papoilas e malmequeres

No meu mar salgado vejo montanhas verdejantes pintadas de cerejeiras

No meu mar vejo rios, vejo os acasos serem fecundos para todos e quaisquer

No meu mar há corações sem sangrar para sorrirem nas floreiras.

 

Armindo Mendes

07.10.21

Fugas (II)

Armindo Mendes

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Fugas são corações que se deixam para trás para continuar em frente?

Fugas são ir em frente e olhar corações para trás, em sobressalto

Fugas são ir em frente e ficar perdido entre a corrente

Fugas são querer parar, andando em terreno alto.

 

Fugas é abrir o livro das histórias já versadas

Fugas é ouvir as músicas nos vinis do tempo

Fugas é ir ao armário e ver o pretérito em almofadas

Fugas é aguarela em pastel sobre tela em desalento.

 

Fugas a subir as escadas e sentir o coração ficar

Fugas é teclar, teclar e a escrita em pó sangrar

Fugas é olhar a lua e sentir sem respirar

Fugas é olhar o mar de Moisés e ver o milagre fechar.

 

 

Fugas é caminhar no bosque e ouvir o riacho calado

Fugas é cheirar as plantas desprovidas de odor

Fugas é inverno de moinho só, de portas cerradas

Fugas é ousar ser o que se é, um sonhador.

 

Armindo Mendes

07.10.21

Fugas!

Armindo Mendes

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Fugas são caminhos estreitos

Fugas são labirintos sem fim

Fugas são dores nos peitos

Fugas são corações assim.

 

Fugas são memórias

Fugas são palpitações

Fugas são histórias

Fugas são turbilhões.

 

Fugas são rodopios

Fugas são olhos baixos

Fugas são arrepios

Fugas são fogachos.

 

Fugas são olhar atrás

Fugas são cara salgada

Fugas são aquém da paz

Fugas são a triste estrada.

 

Fugas são cair e cair

Fugas são recolhimento

Fugas são ter de partir

Fugas são duro sofrimento.

 

 

Armindo Mendes

01.10.21

Línguas de amor eteno segredar

Armindo Mendes

Flor Blogue Armindo Mendes.jpg

Língua que se retrai no primeiro beijo.

Anichada na caverna, oculta por cortina de batom.

A língua espreita doce, miras em lampejo.

E, na boca do passo doble, já num baile em bom tom.

 

 

 

Língua de Romeu que ondula em tango um pedaço de ser.

Língua húmida de Julieta que flutua em devaneio.

Língua que acaricia outra gémea, por se ter.

Línguas em par são passos em bolero, ritmo sem freio…

 

 

Essas línguas enrolam-se, em dança, em ternura.

Essas línguas saboreiam sucos, receber e dar.

Essas línguas segredam o que perdura.

Essas línguas, aves de Danúbio Azul, de amor eteno segredar…

 

Armindo Mendes