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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

28.12.13

Vai-se perdendo o grande prazer de sentir a música

Armindo Mendes
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Confesso que tenho saudades do tempo em que ouvia música, reproduzindo vinil em sofisticados gira-discos. Era o tempo do culto da música e dos discos que comprávamos nas discotecas na cidade para, com ansiedade, desembrulhar, apreciar as ilustrações e fotos nas capas de cartão, limpar cuidadosamente o disco e colocá-lo no gira-discos. E depois ouvíamos, sentíamos vezes sem conta, como quem degusta um bom livro. A música era cara e, por isso, desejada e estimada. Depois, com o advento dos cd, a qualidade melhorou, mas manteve-se o lado físico do suporte musical. Muito diferente do tempo atual, muito menos pessoal, em que temos acesso a toda a música, quase de graça, que amontoamos em suportes digitais sem o lado físico que nos ajudava a senti-la perto de nós, na prateleira, a olhá-la como objeto de coleção e adoração. Hoje temos tanta em discos rígidos ou em aplicações no smartphones que até perdemos a conta. Ouvimos rapidamente, como quem come comida rápida de má qualidade num supermercado, e passamos para a seguinte, rapidamente, esquecendo o que ouvimos, com pressa de conseguirmos acompanhar a vertigem da indústria que produz música em série. São tempos de uma grande superficialidade, que os ritmos frios e repetitivos, privados de criatividade, gerados por computadores, que dominam a música atual, acabam por tornar menos apetecíveis para quem, como eu, cresceu a ouvir e sentir grandes bandas, intemporais, com sons e composições que nos preenchiam a alma. E hoje ouve-se música quase sempre no carro ou com auscultadores ligados a reprodutores de mp3, de duvidosa qualidade, que brotam playlists repetitivas e ensurdecem os nossos jovens. Poucos são os que, como eu, ainda não prescindem de um bom equipamento de som para desfrutar daquela música que nos "enche as medidas". Porque, só assim, digo eu, sinto o grande prazer de ouvir e sentir a música, saboreando-a com a atenção que a arte merece, que o grande som obriga e que o meu desejo procura quando o tempo permite.

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