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Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

Marca d'Água

Apenas um olhar de Armindo Pereira Mendes

31.05.06

> TODOS AO JUNHO (S. GONÇALO) DE AMARANTE

Armindo Mendes

As Festas do Junho, em Amarante, constituem uma das mais importantes manifestações religiosas e profanas de toda a região Norte.
A devoção ao santo movimenta muitos milhares de pessoas, principalmente de Amarante, mas também de outros concelhos mais ou menos próximos. Ouve-se falar de pessoas que vêm do Sul do país e até do estrangeiro para pagar as suas promessas ou simplesmente participar nas mil e uma manifestações de natureza profana.
Nos dias da festa são impressionantes as manifestações de fé, com os católicos, romeiros ou não, a "invadir" o mosteiro do padroeiro, no gesto de devoção e tributo a S. Gonçalo, ao qual pagam promessas ou lhe dedicam uma oração. As filas de fiéis para simplesmente pôr uma mão na imagem do santo traduzem a importância de um momento de fé.
A DEVOÇÃO

A missa solene é um dos pontos altos. Na igreja do mosteiro, ecoam comoventes cânticos de tributo ao santo. Os fiéis, engalanados, vestem o traje domingueiro. A majestosa procissão é outro momento de grande simbolismo religioso. Como é bonito ver as ruas engalanadas da cidade de Amarante, emolduradas por muitos milhares de pessoas, que ladeiam as artérias aos magotes, mas em profundo silêncio, à passagem das imagens religiosas. As colchas que decoram as varandas do velho burgo e as flores que cobrem e perfumam as calçadas por onde passa a procissão são outros sinais distintivos destas festas centenárias. O lançamento de cravos da varanda dos reis e a mensagem à cidade do pároco de S. Gonçalo é outro momento recheado de simbolismo, porventura sem paralelo no país, muito apreciado pelos amarantinos e forasteiros que se concentram no largo.

A CULTURA DE UM POVO
Mas o Junho amarantino é também uma enorme manifestação da cultura popular mais genuína, consubstanciada no enfoque dado aos bombos e no desfile etnográfico que evidencia as características mais simples e rurais das freguesias amarantinas.
É todos os anos assim. O povo sai à rua e revê-se nas suas festas. O programa tem mantido uma matriz comum ao longo dos anos, com pequenos ajustamentos, que não comprometem a tradição.
As festas são da família. Impelidos pelos acordes cintilantes dos instrumentos das filarmónicas da terra, pais, mães e filhos deambulam, em vai vem, por entre a multidão, divertindo-se nos carrinhos de choque, comendo uma fartura, provando o algodão doce ou experimentando uma ou outra tasca da cidade, que servem os petiscos mais apetitosos e os verdes tintos mais atrevidos do Norte de Portugal. Muitas famílias trazem os seus farnéis e aproveitam-nos para, enquanto enchem as barrigas, confraternizar nas frescas da florestal. As crianças saltitam de euforia, à procura daquele brinquedo que vislumbraram naquela barraca chinesa, agora tão comuns na nossa festa. O menino chorou por aquele carro da polícia multicolor e barulhento, enquanto a menina suspirou pela boneca de vestido cor-de-rosa faustoso. Os pais lá têm de largar os cordões à bolsa e cumprir a tradição de pelo Junho, oferecer um brinquedo aos filhos.
Os jovens, principalmente os rapazes, folgam com as brincadeiras em torno dos famosos "S. Gonçalos", os doces de forma fálica, alguns de dimensões ousadas, que oferecem às meninas. As mais acanhadas, cabisbaixas, até coram, mas as mais fogosas agradecem o presente e retribuem com o sorriso atrevido e desafiador.
DIAS DE FOLIA

As alvoradas também são especiais. Os grupos de bombos, hirtos pela tradição, marcham na velha urbe de ruas estreitas e íngremes, acordando ritmadamente os que, fadigados pelas noitadas, ainda dormem, como que desafiando os amarantinos para mais um dia de folia.
À noite, todos se aglomeram junto às pontes. O momento vai chegar... O fogo junto ao rio é uma delícia para olhos, que todos os anos fantasiam com o brilho cruzado proporcionado pelo espelho do Tâmega. Quando o fogo começa, os corações batem mais forte as pupilas dilatam. Os mais pequenos dão as mãos aos pais e erguem a cabeça em sinal de espanto, rendidos ao cintilar barulhento do fogo, embalado pela melodia musical que brota de um potente sistema de som, hoje moda m cada festa que se preze.
Os espectáculos das noitadas são sempre muito animados. A organização tem escolhido artistas de renome nacional, ditos populares, que agradam ao povo mais simples, que corresponde com a presença maciça e entusiástica, comprovando que Amarante continua a ser uma terra onde predomina uma cultura pouco urbanizada.
As festas são assim e o povo gosta.
Vamos todos ao Junho.
Armindo Mendes
24.05.06

“O senhor é um homem com sorte”- dizia eu há dias ao meu sogro (editorial de "O Jornal de Amarante, edição de 4 de Maio).

Armindo Mendes

Tal comentário ocorria recentemente à hora do jantar, quando visionávamos um noticiário televisivo no qual eram anunciadas novas mexidas nas regras de atribuição das reformas.

O meu sogro reformou-se merecidamente, após uma vida dura de trabalho, com a bonita idade de 65 anos. Goza agora a merecida tranquilidade, desfrutando dos prazeres que o tempo livre lhe proporciona.

É um homem de sorte. Nós, os que ainda fazemos descontos, somos quase diariamente confrontados com as iluminadas intenções do nosso Governo, tão preocupado anda ele em arranjar maneira dos nos vir buscar mais uns cobres.

Diz-se em S. Bento, e bem, que a sustentabilidade da segurança social está posta em causa e, por isso, é preciso pôr a rapaziada a trabalhar mais anos, até muito perto dos 70.

Diz-se também em S. Bento que se impõe a reforma da Segurança Social. Também concordo. Começo a discordar é do caminho para lá se chegar, mais uma vez penalizando os que menos têm, os que, quando chegar a idade, mais dependerão da dita reforma, pois os magros salários não dão azo a grandes poupanças. Será possível que nos gabinetes alcatifados dos assessores de Vieira da Silva ninguém se lembra que Portugal não é só as classes médias e altas que habitam no litoral, geralmente as mais bem remuneradas.

O nosso país é onde as assimetrias sociais são mais acentuadas em toda a União Europeia. O fosso entre os mais ricos e os mais pobres está cada vez mais fundo e os sucessivos governos têm-se manifestado incapazes de suster esta tendência. Em muitos sectores da sociedade portuguesa o diagnóstico está feito e são apontadas soluções mais ou menos consensuais. Clama-se, justamente, por reformas estruturais que proporcionem condições para a melhoria da produtividade, mas sem comprometer aquela que é a mais bonita bandeira da nossa velha Europa - o Estado Social.

Defendo que a reforma da Segurança Social portuguesa deveria seguir outros caminhos, que não os agora preconizados pelo Governo, acabando com verdadeiras injustiças, que nos fazem clamar pela lucidez dos que nos governam, sejam eles do partido A ou do partido B. É lugar comum dizer-se que são essas arbitrariedades que comprometem a sustentabilidade da segurança social de um país tão desequilibrado como o nosso. Por exemplo, este governo que se diz corajoso por avançar com as ditas reformas estruturais – em alguns casos até o tem conseguido com êxito – poderia agora manifestar força bastante para aplicar novas regras para os que mais têm. Em primeiro lugar, sugiro que, por decreto puro e duro, como tem feito noutros casos, pusesse termo às reformas daqueles que, por terem desempenhado várias funções no Estado e em empresas públicas, acumulam inúmeras e principescas pensões ou acabando em definitivo, sem paliativos retóricos, com as benesses atribuídas aos titulares de cargos políticos, que ao fim de alguns anos, ainda a léguas dos agora saudosos 65 anos, desfrutam do el dorado que as precoces pensões do Estado lhes proporcionam. Seria interessante aplicar também a esses as famosas regras baseadas no aumento da esperança de vida.

Inspirado nas notícias de que nos últimos meses dispararam as reformas com valores superiores a quatro mil euros - na maioria dos casos são antigos gestores de organismos estatais ou militares -, também sugiro ao famoso ministro Vieira da Silva que se fixasse um tecto de reforma em três mil euros, um valor capaz de proporcionar conforto a qualquer cidadão, tendo até em conta que os cidadãos com descontos suficientes para ter uma reforma com aquela grandeza teriam tido, com certeza, na sua carreira contributiva, rendimentos do trabalho mais do que suficientes para financiar esquemas complementares de reforma, como os famosos PPR e outros produtos financeiros, aos quais recorrem hoje muitos cidadãos de classes menos abastadas.

Estes passos, que consubstanciariam a mais elementar subsidiariedade, libertariam verbas para, com grande generosidade, o governo poder reforçar as pensões dos que menos recebem.

Seríamos então capazes de, a plenos pulmões, elogiar a coragem reformista do governo, que até hoje, no Caso da Segurança Social, se tem manifestado sobretudo junto dos que menos têm.

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